RÁDIO DIGITAL - Tecnologia muda relação com ouvinte
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de setembro de 2007
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
O rádio brasileiro está prestes a passar por uma revolução. No lugar dos chiados e interferências, um som limpo e de qualidade, aliado a serviços interativos e possibilidade de programação diferenciada em um mesmo canal. Nelia del Bianco, doutora em comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do conselho consultivo para rádio digital do Ministério das Comunicações falou à FOLHA sobre as novidades do veículo e as dificuldades para a implantação do novo sistema no Brasil.
A rádio digital vai representar o ressurgimento do veículo?
A mudança para uma tecnologia que melhora a qualidade do som vai revitalizar o AM, que está passando por uma fase crítica. Ele não terá sobrevivência com este som que não permite nem tocar música com qualidade. Para o FM, a vantagem será o som com qualidade de CD e a possibilidade de oferecer serviços agregados, como dados na tela de cristal líquido do aparelho e até três tipos de programação diferenciada na mesma banda.
Além da qualidade do som, o aumento da interatividade também vai ser sentido pelo ouvinte?
Sem dúvidas, mas isso se os radiodifusores passarem a explorar, de fato, este potencial da interatividade. Nos testes que estão sendo feitos no Brasil até o momento, os radiodifusores não estão experimentando as funções interativas da tecnologia. Estão muito concentrados na qualidade de som e não enxergam o potencial de negócio que há na rádio digital.
Quais são estas oportunidades de negócios?
Em primeiro lugar, ter até três canais funcionando na mesma banda, o que permite atingir públicos diferenciados. Só a qualidade de som não será o bastante para o rádio. Ele produzirá informações disponíveis na tela do aparelho, dados sobre economia, trânsito, além de vender música digital.
Essa falta de interesse das emissoras acaba travando o avanço da rádio digital no país?
Não que trave, mas é como se tivesse uma visão limitada de algo que é muito bom. Isso tem a ver com uma tradição de como a radiodifusão se instalou no Brasil. Segundo estimativas do próprio setor, 45% das emissoras estão nas mãos de políticos, pessoas que não são do ramo. Considerando também as emissoras religiosas, somente 20% das quase seis mil emissoras em funcionamento no Brasil são de pessoas que têm compromisso de oferecer programação de qualidade ao ouvinte. O rádio digital vai exigir profissionalização das emissoras, porque ninguém vai trocar um aparelho que hoje custa R$ 15 por outro que custaria até R$ 200 se não tiver um atrativo na programação.
E como vai ser a transição do analógico para o digital no Brasil?
Muito lenta. A previsão é de cerca de dez anos para ser completa. Só se pode falar em transição completa quando imaginarmos que no interior do Amazonas alguém estará ouvindo a rádio digital. Por isso, a convivência com a tecnologia analógica ainda vai ser longa. Pelo poder aquisitivo da população, até que o rádio digital ganhe escala e possa ter o custo barateado vai demorar.
Já estão sendo estudadas alternativas mais viáveis?
Enquanto o padrão não for definido, as indústrias não podem se movimentar. Há uma promessa do Ministério das Comunicações que no dia 14 de setembro isso seja definido. Mas esta decisão tem sido avaliada como apressada porque, das 17 emissoras que fazem testes com rádio digital, nenhuma entregou relatórios definitivos, e os relatórios parciais estão inconsistentes. O padrão pode ser escolhido no Brasil sem ter sido devidamente testado.
Essa definição precoce pode ser prejudicial então...
Não é questão de ser precoce, pois já poderia estar amadurecida há mais tempo. Só ficou para trás em função de outras prioridades, como a TV Digital. A decisão tem sido insistentemente adiada e chegou o momento que não tem mais como adiar.


