Rádio: 80 anos de ideologia e poder
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sexta-feira, 06 de setembro de 2002
Osmani Costa 
Completa hoje 80 anos da primeira transmissão radiofônica no Brasil, co-promovida pelos governos brasileiro e norte-americano em comemoração ao Centenário da Independência do País. Inventado pelo italiano Guilherme Marconi no final do século XIX, o rádio desenvolveu-se rapidamente nas primeiras décadas do século passado e chegou à então capital Rio de Janeiro, naquele 7 de setembro de 1922, como símbolo máximo da modernidade.
De lá para cá, o rádio tem servido a exemplo dos demais veículos de comunicação de massa como importante instrumento de produção, manutenção e reprodução da ideologia capitalista implantada pelo Estado e elite brasileiros. Isto ocorre porque, em grande parte, os concessionários das emissoras comerciais estão intimamente ligados ao governo federal. Aqueles são dependentes deste por três motivos básicos: o sistema cartorial de concessões, a força da verba publicitária oficial e a opção político-ideológica conservadora.
Getúlio Vargas e o seu Estado Novo 1930 a 1945 implantaram no sistema de radiodifusão brasileiro características autoritárias que perduram ainda hoje, passado mais de meio século em que convivemos com momentos de abertura democrática e com a longa ditadura militar de 1964 a 1985. Apesar de importantes serviços prestados à população ao longo deste tempo radiojornais, radionovelas, programas de auditório, campanhas de utilidade pública etc. o rádio não conseguiu romper o cerco do Estado privatista e se colocar inteiramente ao lado dos interesses populares, notadamente nos momentos de crise.
Com o passar do tempo, o rádio foi assumindo destacado papel nas campanhas eleitorais no País. Principalmente a partir das décadas de 1960-70 quando, juntamente com a televisão, ele constituiu o chamado ''palanque eletrônico'', em substituição ao antigo ''curral eleitoral''. Foi então que os profissionais do marketing ocuparam na política cada vez mais parecida com a arte teatral de encenar o lugar dos antigos coronéis.
Num país de analfabetos e semi-analfabetos como o Brasil, em que grande parte da população ainda tem problemas primários não resolvidos, a força política-eleitoral do rádio segue imensa. Não é por acaso que tantas emissoras estão sob o domínio de políticos de carreira ligados ao poder central.
No ano passado, 83 deputados federais, 13 senadores, cinco governadores e dois ministros possuíam centenas de emissoras espalhadas pelo País. Das 3.314 emissoras comerciais em operação, 37,50% pertenciam a políticos ligados ao PFL; 17,50% aos do PMDB; 12,50% aos do PPB; 6,25% aos do PSDB; 6,25% aos do PSB; e 5% aos de outros partidos menores. Apenas 6,50% estavam em mãos de empresários da comunicação sem ligações político-partidários; enquanto que 6% pertenciam a igrejas e outros 2,50% eram emissoras educativas e/ou públicas.
Em Londrina onde a primeira emissora entrou no ar em 1943 estão em funcionamento hoje 10 emissoras de amplitude modulada (AM) e 5 de frequência modulada (FM). Destas, 5 pertencem a empresários do setor; 5 estão nas mãos de igrejas; 4 pertencem a políticos ou ex-políticos; e uma é educativa, da Universidade Estadual.
Simultaneamente a esta íntima e complexa ligação com o poder central, o rádio foi sendo utilizado como porta de entrada na carreira política por seus profissionais. Assim, tornou-se comum no País, nas últimas décadas, a eleição de radialistas para os cargos de vereador, prefeito, deputado, senador e governador. Em Londrina, não foi diferente.
Aqui, 15 profissionais do rádio se elegeram para estes diferentes cargos eletivos desde 1959. Quatro deles foram campeões de voto para a Câmara Municipal em sucessivas eleições. Os três radialistas-políticos de maior sucesso na cidade são: Alvaro Dias (vereador, deputado estadual, federal, senador e governador); Antônio Belinati (vereador, deputado estadual, federal e três vezes prefeito); Luiz Carlos Alborghetti (vereador e deputado estadual desde 1986).
A profissão de radialista foi a terceira que mais elegeu ''representantes'' à Câmara de Vereadores nas últimas quatro décadas, atrás apenas dos advogados com 18 eleitos e dos comerciantes, com 16 vitoriosos nas urnas. Mas nem só de vitórias é feita a participação político-eleitoral dos radialistas em Londrina. No mesmo período, outros 17 radialistas foram derrotados em suas candidaturas. A mais recente eleição municipal, em 2000, foi a primeira em 41 anos em que nenhum radialista conseguiu se eleger. Será esta mudança definitiva ou apenas circunstancial?
OSMANI COSTA é professor de Jornalismo na UEL, mestrando em Sociologia e redator desta Folha


