Esta parece ser a ‘‘eterna’’ brincadeira.
Recentemente o rabino de Israel, Meir Lau, pretendeu exigir do Papa um pedido formal de desculpas, de uma culpa que ele não teve, nem Pio XII teve no envolvimento do Shoah judeu. O rabino parece estar brincando de atacar a Igreja.
Bem entendido este pormenor passo a outro ponto, e pergunto: quem pode julgar a Igreja, quem tem autoridade moral para fazê-lo, ainda que de brincadeirinha, ou seja, elevar-se no orgulho a ponto de exigir da Igreja corpo de Cristo um pedido formal de desculpas? Certamente ninguém.
A Igreja é infalível em fé e moral. E a Igreja age segundo a moral de Jesus Cristo da qual é guardiã e missionária, ou seja a Igreja é moral em seus atos.
Eu vos pergunto: alguém poderia objetar de que Jesus calou-se diante da grande violência que os homens lhe impuseram? Deveria ele ter destruído seus algozes aos berros e murros, ou chamando sobre eles, do céu, um castigo disciplinar? Teria então se realizado a redenção dos homens? Teria ressuscitado o Senhor?
Está bem, você me diz que não acredita nisso, e que tudo isso é bobagem. Pois bem, a Igreja também é um Estado, ora...e é um Estado com um exército desarmado. Não possui tanques, aviões, navios, bombas atômicas. Isto ao menos você acredita? Um exército de religiosos que por estarem espalhados pelo mundo todo envolvem-se com a vida, as consequências da economia e dos problemas de cada nação, incluindo as suas lutas civis e guerras de um tal modo que muitas vezes perdem a própria vida. O mesmo podemos dizer do povo judeu. Pois bem, a Igreja esteve presente na história da humanidade nestes dois mil anos, e foi, só um cego não vê, a guardiã da moral universal. Desde o princípio, com o sacrifício cruento de Jesus Cristo, com o martírio de Pedro e Paulo em Roma, e de outros apóstolos, iniciava a Igreja o seu calvário. Exortando e sendo desobedecida. Ensinando, iluminando, pacificando e sendo atacada. A Igreja diz como Cristo disse na Cruz: ‘‘Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem’’.
Por outro lado me responda: o nazismo pode ser identificado com a Alemanha? Não. Todo alemão é nazista? Não. Todo nazista é culpado? Não. Durante a Segunda Guerra todo alemão que vivia e nasceu fora da Alemanha, fruto de gerações distanciadas do seu país de origem, falando já, pela distância e tempo, um dialeto bem distanciado do alemão originário de seus antepassados, longe, muito longe do nacional socialismo, foram também investigados, inquiridos, perseguidos, presos... e até tiveram seus bens confiscados, por uma suposta ou possível colaboração com o inimigo. E, eu vos pergunto Auschwitz e sua controvertida história é suficiente desculpa para fazer com que judeus joguem o jogo do ‘‘somos perseguidos, perseguindo’’ a ponto de se acharem no direito de perseguir e caluniar a Igreja acusando-a de omissão durante a Segunda Guerra?
De qualquer forma eu também vos pergunto, a Igreja está calada frente aos crimes cometidos na China? Somente entre 1947 e 1949 cinco milhões de chineses foram exterminados naquele país, o mundo verdadeiramente se condói por eles? Os rabinos estão preocupados com este massacre? Esteve calada a Igreja no caso do Khmer Vermelho? No caso do Vietname (Vietnã) alguém se preocupou com o martírio do padre Hoang-Negoc-Minh da cidade de Kontum? Esteve calada a Igreja diante do assustador número de civis mortos nas duas guerras mundiais? Esteve calada no caso de Hiroshima e Nagasaki, cidades católicas do Japão destruídas pela bomba atômica? Está calada a Igreja nas denúncias dos crimes cometidos na Palestina? Na Rússia, e nos seus países, diríamos, conglomerados, diz uma fonte católica fidedigna, que entre 1917 e 1959 foram assassinados 55 bispos, 12.800 padres e religiosos, além de dois milhões e quinhentos mil católicos. Foram dissolvidos 1600 conventos, 31.799 igrejas foram fechadas e 400 jornais e revistas foram proibidos. Todas as organizações católicas foram extintas. O Papa deverá então pedir desculpas também aqui? Em Cuba? Na Bósnia? Ou espera-se que o Papa pegue em armas como os judeus esperavam de Barrabás?
Lembrem-se que muito antes dos deportados judeus começarem a chegar em Auschwitz em 1942 muitos lá tinham morrido, inclusive São Maximiliano Kolbe, padre franciscano. Entre 1940 e 1945 meio milhão de poloneses perderam a vida ali e quantos eram cristãos católicos? Em Birkenau outro pessoa muito cara à Igreja morreu, trata-se da filósofa judia e religiosa carmelita Edith Stein, que já foi beatificada em 1 de maio de 1987. E entre o população civil quantos católicos e protestantes morreram? A Igreja perdeu perto de dois mil padres na guerra. Muitos em Dachau.
Do mesmo modo que podemos afirmar que o nazismo é uma realidade histórica da Alemanha, podemos também dizer que é uma realidade histórica dos hebreus chefiados por David que tomaram, pelas armas, a cidade de Jerusalém que não lhes pertencia. David pediu desculpas aos vencidos? Ou os babilônios e seus descendentes devem pedir desculpas por terem destruído Jerusalém em 586 antes de Cristo, ou a Igreja também é culpada disso? Ou ainda a Igreja deve ser culpada pela destruição de Jerusalém por Tito em 70 depois de Cristo? Pagaremos também pelo cativeiro do Egito? São realidades históricas tão verdadeiras como a ‘‘Guerra dos Seis Dias’’ ou os verdadeiros motivos da Guerra do Golfo. Ou ainda de que um judeu foi projetista do P 51, e outro está envolvido com a teoria que resultou na bomba atômica. Percebe-se como se manipula a culpa? Tudo isso é lamentável porque é fruto do ódio.
Se hoje João Paulo II nos reafirma a universalidade da Igreja (missionária para todos os povos) e diz que todos os judeus não podem ser penalizados, humanamente falando, por terem gritado ‘‘Crucifica-o. Crucifica-o’’, referindo-se ao julgamento de Jesus Cristo, não se pode negar também, a realidade, histórica e escriturística, de que os judeus pediram que o sangue de Cristo lhes caísse sobre as suas cabeças e sobre as cabeças de seus filhos. Eles não sabem o que fazem...disse, todavia, o Senhor. Mas isso é com Deus, não com os homens e as suas imperfeições. A Igreja quer o perdão. A Igreja continua esperando a conversão dos judeus e não os acusa. Não acusa o judeu alemão Karl Marx, e os judeus que lideraram a revolução russa pelo grande atentado feito à Igreja naquele país. Do mesmo modo não posso dizer culpados os meus amigos judeus em Curitiba pelas decisões tomadas no Kennesseth ou pelo fato de os judeus do passado terem financiado a invasão holandesa no nordeste brasileiro para beneficiarem-se do tratado de Utrecht sobre a liberdade religiosa e do comércio do açúcar, ou devo ainda inquirir, erradamente, qualquer judeu porque o Estado de Israel não quer dar cidadania israelense aos ‘‘Judeus Messiânicos’’ que são cristãos. Isso é lá com eles, pois o Estado de Israel se confunde com a ideologia israelita e tem direito de lhes negar a cidadania, do mesmo modo que os Estados Cristãos, ao tempo em que algumas nações no passado se confundiam com a ideologia do cristianismo e evitavam aqueles que professavam outros credos como inimigos de Estado. Em Israel é a mesma coisa. Não pensem que a coisa difere muito, pois o primeiro rabino do Brasil, Isaac Aboab da Fonseca, não participou do tribunal que excomungou o judeu Spinoza? Não é assim que devo pensar? Estou errado?
Ora, meus senhores, o Papa Pio XII, na época da Segunda Guerra Mundial, posicionou-se como de resto a Igreja tem se posicionado diante de todos estes graves conflitos internacionais. Diplomaticamente e não militarmente ou revolucionariamente. Exortando. A Igreja se posiciona moralmente. Milhões de seres humanos de todas as raças são abortados e não se poderá dizer que a Igreja calou-se diante desse crime, não é verdade? Dos abortados alguns são queimados em fornos crematórios de lixo hospitalar, mas viram cosméticos, e até brincos para mulheres, ou ‘‘remédios’’, e isto não é tão bárbaro como os crimes de guerra? Podemos dizer que Israel se cala diante destes sacrifícios oferecidos ao egoísmo? Não. Então não seria o caso de eu perguntar aos israelitas, que ainda esperam o Messias, se não lhes apavora a idéia de que o esperado tenha sido abortado? Não, na verdade isso não aconteceu porque o seu nome é Jesus Cristo, judeu da Casa de David.
Cá entre nós eu começo a achar que não são os judeus, enquanto povo, os que atacam a Igreja, mas uma elite, que força um conflito para evitar a paz, pois nela, na paz, deverão ser resolvidas definitivamente alguns pontos, entre outros, o definitivo quadro dos limites políticos e geográficos do Estado de Israel.
Esquece o rabino de Israel, Meir Lau, de que a ação de Pio XII foi tão eficiente dentro do que lhe era possível, intercedendo diplomaticamente, ajudando monetariamente, escondendo judeus, permitindo que se escondessem nos mosteiros e nas ordens religiosas, auxiliando suas remoções de dentro do campo minado que era a Itália e outros países envolvidos, ação tão eficaz que levou o prestigioso rabino de Roma, o rabino Zolli, à conversão ao catolicismo recebendo no batismo o nome de Eugênio, o mesmo nome do Papa Pio XII, Eugênio Pacelli, para depois ir ensinar língua e cultura hebraica no Pontifício Instituto Bíblico de Roma. O rabino Zolli escreveu: ‘‘Nenhum herói da história jamais comandou um exército mais corajoso, mais atacado, mais heróico do que Pio XII em nome da caridade crist㒒. Um exército desarmado. Ora assim parece que também pensavam os judeus que foram em delegação aos funerais de Pio XII ou, pode-se deduzir o mesmo das declarações públicas de Golda Meir, primeira ministra de Israel que admitiu a ação, ajuda e voz de Pio XII contra os crimes de guerra. Também pensam assim os judeus que puderam deixar o palco da guerra com a ajuda da Igreja, muitos viveram e ainda vivem no Brasil.
De resto também é bom lembrar as visitas de outras autoridades israelenses que no Vaticano deixaram clara a sua posição favorável: Abba Eban em 1969, primeiro-ministro das Relações Exteriores; Golda Meir em 1958 e 1973, primeira-ministra de Israel; Moshe Kol, ministro do Turismo em 1975; Mosch Dayan, ministro das Relações Exteriores em 1978; Isaac Shamir, ministro das Relações Exteriores em 1982 e em 1985 visitando o Papa no Vaticano novamente como primeiro-ministro.
De qualquer modo, e finalizando, eu enquanto católico não me sinto culpado, nem aceito que me imponham culpa, ainda que me sinta sensibilizado pelos fatos históricos que pesquiso, em nome da verdade, por qualquer ato cometido por algum católico ou outro cristão e até por judeu (posto que alguns também lutaram ao lado de Hitler conforme afirma Catan) que tenha lutado ao lado dos nazistas, ou daqueles que longe da compreensão das ideologias envolvidas lutaram porque acreditavam na Alemanha. Assim como, fique bem claro, que até aqui, não vejo como estabelecer uma relação de culpa da Igreja com o morticínio civil e militar das vítimas da Segunda Guerra Mundial.
Alguém se preocupou que os EUA peçam desculpas ao Japão pela bomba atômica? Ou o ‘‘ocidente’’ estaria pedindo desculpas pela omissão e silêncio durante o isolamento forçado do povo russo nos últimos 70 anos e pelos crimes cometidos contra os católicos russos? Alguém se importa verdadeiramente com a situação de Cuba? Alguém se importa com a Igreja subterrânea da China? Com a fome e a exploração na África? Ou vamos brincar no futuro de atacar a Igreja para aliviar nossas consciências individuais, ideológicas ou raciais?
Senhores, a Igreja, nascida de Jesus, da Casa de David, não tem culpa do Shoah de Auschwitz.
Os judeus, e, de resto, todos nós, seres humanos, reconhecemos a culpa que tivemos nos bastidores de todas as guerras? Acho que não. Enquanto isso, desejo Shalom, na moralidade do monte Horeb, sem jamais abrir mão da luta pela verdade.
- WALLACE REQUIÃO DE MELLO E SILVA é psicólogo.

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