O pior sintoma do ‘‘fenômeno Ratinho’’ é que ele ressuscitou uma ficção da mídia, que teima em prevalecer sobre o bom-senso praticamente desde onde alcança a minha memória - e ela já cobre cinco décadas: a de que o povo gosta mesmo é de apelação e baixaria.
Muitos anos atrás, era ‘‘O homem do sapato branco’’ quem assombrava os analistas sociais e os especialistas em mídia, nas agências de propaganda. Dizia-se que seu estilo contaminaria todos os demais programas e que o governo tinha mesmo era que impor a censura porque o povo não sabe o que faz. Nada disso aconteceu, ninguém se lembra mais do homem do sapato branco e - embora o governo realmente gostasse de poder fazer uma censurinha, de novo - o fato é que o povo sabe muito bem o que faz e o de que gosta, inclusive de uma baixaria ou outra, pela TV, e uma sacanagem qualquer de vez em quando.
A isso os profissionais de marketing chamam segmentação.
Daí eu não estar entendendo - e me conformando ainda menos - com o absurdo mimetismo que está assolando a nossa mídia.
Tomem-se, por exemplo, as nossas geralmente excelentes revistas noticiosas semanais. É claro que a entrada de ‘‘Época’’, bancada por um poderoso grupo empresarial, assustou as concorrentes. A consequência positiva foi que houve uma melhora perceptível em todas elas - na diagramação, na qualidade gráfica, na variedade de assuntos tratados. O mal, contudo, é que, na busca de circulação, todas ampliaram de muitas páginas a cobertura de crimes, escândalos, guerras, violência e outras manifestações patológicas que caracterizam boa parte das sociedades modernas - mas que não as representam nem explicam.
O rádio não ficou atrás. Não é raro que a ‘‘CBN’’, ou a ‘‘Globo’’ - emissoras que me acompanham pelas ruas do Rio, no rádio do carro - noticiem crimes bárbaros ocorridos em localidades distantes, no interior do País. O que me faz pensar como seria se, em Portugal, na Suécia ou na Suíça, países supostamente pacíficos e ordeiros, com populações minúsculas, a mídia fizesse a mesma coisa e fosse buscar o sinistro e o grotesco na Turquia, no Azerbaijão ou na Croácia. Pensando bem, isso até acontece, às vezes.
Mas volto ao meu ponto de vista, da segmentação. Alguns dos jornais mais canalhas do planeta são editados em plena vanguarda do Primeiro Mundo, na Alemanha e na Inglaterra. De suas páginas escorrem gotas de sangue e outras substancias malsãs, simplesmente porque, tanto numa sociedade como na outra, existem pessoas - alguns milhões delas - que curtem ler sobre patifaria e bandalheira. Mas não são todas as pessoas. Isso, aliás, é tão verdadeiro, que - com a melhoria que o Real trouxe ao poder aquisitivo do povão, no Brasil - ‘‘O Dia’’, no Rio, fez um bem-sucedido upgrade, e jornais como ‘‘A Notícia’’ e ‘‘Luta Democrática’’ morreram de morte natural.
Mas o fenômeno ultimamente anda epidêmico e pode ser observado também na TV, na programação e nos noticiários, e nos jornais. Manifestação típica, aliás, ocorreu recentemente, quando um plantonista de hospital confessou ter apressado a morte de pacientes em estado crítico: dois dos nossos principais jornais apressaram-se em noticiar, na primeira página, um, que havia sido 100 mortes; o outro 130. Por que não 500?
É possível e até certo ponto compreensível - a partir, bem verdade, de muita tolerância - que os responsáveis pelo faturamento comercial dos veículos se tenham apavorado com os recentes abalos na economia - e influenciem as redações para adicionar a seus espaço e tempo noticiosos doses maciças de apocalipse. De fato, todos sabemos que viver e trabalhar no Brasil, hoje, com os políticos que temos e que se revezam na administração pública, é um processo neurotizante.
Mas, na mídia, a bem curto prazo, o resultado vai-se mostrar antropofágico e devorará seus mentores. Há milhões de brasileiros - todos consumidores - que desejam boa e saudável programação de TV, noticiários que noticiem, rádio que informe e divirta e, se possível, cada um a seu modo. Porque se, de fato, há uma característica bem geral da população brasileira, esta é a sua magnífica diversidade.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) no Rio de Janeiro

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