Quilos de alunos, gramas de ensino - Haroldo Santos Filho
Haroldo Santos Filho
O disputado comércio da educação particular recebe, a cada dia, um maior número de espeluncas de ensino que, devidamente autorizadas por processos políticos vergonhosos, dizem-se faculdades, e produzem indiscriminadamente alunos que conseguem sair piores do que entraram, em termos de conhecimento específico. Embora este fato ocorra com muitas profissões, tem-se agravado de forma substancial e notória no caso do curso superior de Ciências Contábeis. Alguns pontos, penso, sintomáticos, podem ser colhidos da própria sala de aula pelos professores.
No início dos períodos letivos, tenho feito aos meus alunos, as quatro perguntas seguintes: qual a atividade que hoje desempenha? Por que escolheu ciências contábeis? O que pretende fazer após formado? Qual o nome de um contador conhecido?
À primeira pergunta, cerca de 70% respondem que trabalham e atuam em áreas completamente distantes da Contabilidade. À segunda, as respostas que figuram em maior número indicam que a escolha é motivada pela menor concorrência e por ser um curso noturno. À terceira pergunta, cerca de 50% dos alunos respondem que permanecerão em seus empregos e/ou funções anteriores e que tentarão a aprovação em um concurso público. E finalmente, à quarta pergunta, existem alunos de último período que simplesmente não lembram de nenhum nome. Por poucos alunos, alguns autores conhecidíssimos ainda são citados.
Mérito seria para o calouro do curso, pois de um formando não se poderia esperar outra coisa senão, no mínimo, tais citações. O aluno finalista de Contabilidade que não conheça um Lopes de Sá, pode ser comparado a um brasileiro que nunca tenha ouvido falar num cara chamado Pelé! Passa a ser uma questão de cultura geral (ou falta de...).
Tabulados esses resultados, conclui-se com que no ensino superior de Contabilidade não temos somente problemas com a qualificação do corpo docente (...o que não seria privilégio desse curso) mas, também, com os alunos selecionados, a matéria-prima principal do produto vendido: o ensino.
Honestamente, como é possível formar um contador, ou simplesmente motivar uma pessoa que tenha passado todo o dia vendendo consórcio, carro, roupa, bijuteria ou seguros e que, à noite, terá de se entregar ao ensino dos princípios fundamentais da contabilidade ou das práticas contábeis e suas partidas dobradas? Nem Luca Pacciolli responderia essa!
Em uma visão mais objetiva, podemos dizer que existem inúmeros alunos cursando Contabilidade que nunca pretenderão ser contadores. Querem o canudo. Querem agradar a seus pais. Querem fazer um concurso público qualquer (desses que assassinam a nossa criatividade para todo o sempre). Querem tudo, menos serem chamados de contadores.
Será que isso também ocorre com outras profissões? Analisemos, como exemplo, o curso de Medicina. Não consigo imaginar alguém cursando Medicina que não goste daquilo. Não consigo imaginar alguém terminar aqueles seis longos e difíceis anos e ao final dizer: Não quero ser médico! Não acredito que eles não tenham identidade com um sem-número de personalidades na área médica com as quais possam se espelhar e dizer: Quero ser assim quando me formar...!
Algumas ações, mesmo difíceis de se implementar, podem ser ensaiadas no sentido de se tentar mudar esse processo avassalador de destruição da qualidade do ensino da Contabilidade. A primeira delas será a instituição por parte de nosso Conselho Federal de Contabilidade (CFC) de um severo e sistemático exame de suficiência, a exemplo do que é feito pela OAB. Teremos bacharéis a perder de vista, mas aptos a exercer a profissão.
Depois, deveria vir uma providencial e drástica redução do número de ofertas de cursos superiores de Contabilidade. Que permaneçam as instituições que tenham como diferencial qualidade e produção científica relevantes. Com a menor oferta, espera-se que haja melhor seleção do candidato à vaga. Assim, é nossa esperança que aquele que não quer mesmo ser contador, que não seja. Escolha outra profissão só para poder dizer que fizeram curso superior.
O corpo docente precisa ser motivado a produzir trabalhos científicos e a participar de congressos e eventos da Contabilidade. Só assim, poderiam envolver e motivar mais seus alunos. Isso deveria valer também para os professores não-contadores vinculados ao curso, sob pena de essas pessoas venderem seu peixe isoladamente, e sem compromisso com o profissional que o mercado espera, o que normalmente tem ocorrido.
Por fim, sugiro que seja aberto um determinado percentual de vagas destinadas aos técnicos em contabilidade, com atuação na área comprovada há mais de 5 anos. Este profissional de nível médio, que já atua na área contábil, teria entrada franca nos cursos superiores de contabilidade. Quem sabe poderão surgir daí grandes contadores, tão necessários num país em que de um lado se contabilizam cifras faraônicas e de outro, crianças inocentes morrem de fome.
Segundo Paulo Freire, a educação é um ato de amor, por isso um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa. Caso nossas autoridades fiscalizadoras não corrijam urgentemente essa realidade, não serão suficientes amor, coragem ou dedicação para salvar o ensino da contabilidade. Transformar prata em ouro não tem sido tarefa de professores ou mesmo de educadores. Quem sabe de um alquimista?





