Questões sociais: um novo enfoque
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quinta-feira, 31 de outubro de 2002
Moises de Godoy 
Com força e esplendor irrefutáveis, o dr. João Baptista Herkenhoff, escritor de largos recursos e professor na Federal do Espírito Santo, trouxe, em recente artigo, oportunas considerações de cunho eminentemente social, a que deu o nome de ''Desemprego e Eleições''.
Alegando que tempo de eleições presidenciais é tempo de debate de questões nacionais, o autor faz percuciente análise a respeito da ''questão do desemprego'', abordando pontos que ele considera como laterais, mas que ''por serem laterais, não (me) parecem desprovidos de importância''.
Em vez de nos valermos de especialistas que ''se perdem, enredados nas suas elucubrações'', o autor chama a atenção para uma postura que se é de fazer com ''os pés no chão'', que se refere ao problema da carência de mão-de-obra, que decorre do fato de grande número de empresas homenagear o capital e não o trabalho, e, por isso, são renitentes em enxugar seus quadros de empregados à custa da deterioração dos serviços prestados e, como faz a grande maioria dos supermercados, se pautam na estratégia de pretenderem transformar os consumidores em empregados.
É comum, hoje em dia, ao se solicitar informação telefônica, o ser-se atendido por uma gravação intermitente, que manda se digitem números e mais números, até que se chegue a uma pessoa concreta, tangível e que possa atender. Até que se encontre o responsável, nesse interlúdio cibernético, muita mão-de-obra pessoal foi evitada, com reflexos diretos sobre a questão do mercado empregatício nacional.
Por outro lado, nos supermercados, que pregam a tese da mercadologia impessoal - tirada sorrateiramente do que entendem como globalizado - é comum que o consumidor se obrigue a embalar suas compras ou peregrinar pelos corredores na busca da mercadoria desejada, sem que possa contar com o auxílio de um serviçal. Daí se poder afirmar, com o autor, ''quantos postos de trabalho são subtraídos ao povo, através desses expedientes maliciosos''.
Seria interessante que o público, todos nós, resistisse a esse abuso e passasse, como que orquestradamente, a dar preferência aos estabelecimentos que economizem menos com empregados, revitalizando a antiga prática do contato face a face do vendedor com o comprador.
No aludido trabalho é lembrado o grande profeta contra a fome que foi Betinho, que lançou como desafio que cada família de classe média no Brasil proporcionasse um emprego a alguém, incrementando-se a oferta do ''emprego doméstico'', desde que, na consideração de que uma residência não é uma empresa, se promovessem alterações na legislação respectiva, de modo que a efetiva geração ''desses modestos empregos'' pudesse ser estimulada, sem maiores e mais complexos ônus ao simplérrimo empregador.
Partindo dessas pequenas soluções, que podem até ser abertamente desenvolvidas através de organizações não-governamentais, ligadas diretamente às bases comunitárias locais, estar-se-ia sinalizando para busca de soluções, que viriam, no momento, ao encontro de aspirações fundamentais da coletividade como um todo. Estar-se-iam repetindo práticas levadas a cabo em outros países, a exemplo da Inglaterra que, durante a 2 Guerra, criou um pequeno imposto adicional que, em cascata, serviu para propiciar maior acesso às fontes produtoras de alimentos, em favor da grande massa que sofria os efeitos de todas as restrições quanto à demanda de gêneros.
É preciso - e urge - que se voltem os olhos para as angústias da população que, ao que parece, se renova de esperanças nesta nova fase em que os ''donos do poder'' têm origem que lhes é comum, provêem de classes sociais de padrão homogêneo aos dos que, nessas eleições, fizeram a opção por um modelo e um discurso mais humanos, mais justos e menos embrincados em princípios econômicos que, ao longo dos anos, a mantiveram num insuportável labirinto, elevando a máquina a status de grande relevância.
MOISES DE GODOY é advogado e especialista em História do Pensamento no Brasil


