Os religiosos em geral não aceitam ter suas ideias criticadas

Os religiosos em geral não aceitam ter suas ideias criticadas

A crença nas divindades sempre guiou o homem. Politeístas ou monoteístas, as religiões pautam muito das ações humanas. Mas para um grupo em especial, a crença nas divindades - ou a ausência dela - não faz a mínima diferença. São os ateus ou agnósticos.
O problema, segundo eles, é a associação que muitos fazem entre ações ruins e a ''falta de Deus no coração'', como bradou recentemente em rede nacional um apresentador de TV, ao comentar ações de bandidos. A consequência: o jornalista está sendo processado.
Para tentar diminuir o preconceito, representantes da Atea (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) lançaram a campanha ''Diga não ao preconceito contra ateus'', que previa peças de propaganda em ônibus de Salvador, Porto Alegre e São Paulo.
Iniciada no Reino Unido em 2009 e usando frases como ''Religião não define caráter'' e ''A fé não dá respostas. Ela só impede perguntas'', a campanha gerou polêmica e acabou rejeitada, sob alegação de violar dispositivos das respectivas leis de publicidade em espaços públicos.
Em entrevista à FOLHA Daniel Sottomaior, presidente da Atea, fala sobre a campanha e sobre o interesse da associação em tirar os ateus da invisibilidade. ''Queremos deixar claro que o nosso ponto de vista é tão legítimo quanto o de todos os demais'', justifica.
Qual a diferença entre ateus e agnósticos?
Não existem definições consensuais. Na Atea, adotamos as seguintes definições: ateu é todo indivíduo que não possui crença em divindades; agnóstico é o ateu que não tem crença em divindades porque entende que essa é uma questão em aberto, impossível de responder, ao menos no momento.
Qual é o objetivo da campanha? Por que está sendo feita agora?
A campanha tem vários objetivos. Acabar com o preconceito contra os ateus é o principal, e por isso aparece em todas as peças. Mas queremos também tirar os ateus da invisibilidade e deixar claro que o nosso ponto de vista é tão legítimo quanto o de todos os demais.
Algumas pessoas consideraram as peças publicitárias preconceituosas, já que colocam implicitamente que as pessoas que creem em algo não sejam tão boas quanto os ateus (Charlie Chaplin x Adolph Hitler). Qual sua avaliação?
É uma leitura que não está amparada no texto das peças. No caso do Chaplin, por exemplo, dizemos com todas as letras: ''Religião não define caráter''. Ora, não consigo imaginar uma frase mais clara e mais sucinta que essa expressando o fato de que religiosos não são melhores do que ateus e que ateus não são melhores do que religiosos. Se religiosos não fossem tão bons quanto ateus, então religião definiria caráter. Dizemos exatamente o oposto disso. A escolha por um religioso mau e um ateu bom se deu porque ela solapa os estereótipos obviamente falsos contra os quais queremos lutar: a de que religiosos são automaticamente bons, ou melhores de alguma forma, e que ateus são automaticamente maus, ou piores de alguma forma.
No caso dos atentados, nem o texto nem a imagem afirmam que somos melhores. O texto é uma referência muito clara à ideia que aparece nos Irmãos Karamazov (obra do russo Fiódor Dostoiévski), de que ''Se Deus não existe, tudo é permitido''. Essa ideia é utilizada com muita frequência para apontar que ateus são intrinsecamente imorais, já que a ausência de divindades tornaria impossível determinar qualquer norte moral. Ora, a peça mostra que isso é somente um estereótipo preconceituoso, pois os preceitos morais religiosos variam tanto entre as religiões (e variam também dentro das religiões), que a existência de deuses também acaba levando a um ''tudo é possível''. Enfim, em nenhum lugar está escrito ou sequer insinuado que religiosos são menores ou piores. A mensagem é exatamente a oposta, pois apontamos que seguir moralidade religiosa não é sinônimo de uma moral que respeite o sofrimento humano.
A campanha parece menosprezar quem crê em Deus. Por que não optar por uma publicidade mais respeitosa?
Onde exatamente está esse menosprezo e esse desrespeito? Atá agora ninguém conseguiu apontar. Entendemos que os religiosos em geral não aceitam ter suas ideias criticadas, mas esse é um direito do qual não abrimos mão - e em nada desmerece os indivíduos. Note-se que em nenhum lugar criticamos os religiosos, apenas ideias, e ideias preconceituosas. Não temos nenhuma intenção de respeitar ideias. Nosso respeito é dirigido somente a seres sencientes, isto é, que podem sofrer. Ideias não têm direitos e não precisam e não devem ser protegidas. Seres humanos têm direitos, precisam e devem ser protegidos, e contam com nosso mais profundo respeito.
O ateísmo pode passar a impressão de que os que creem não são capazes de agir por si próprios. Mas algumas religiões pregam o livre arbítrio e não fazem distinção entre quem crê em Deus e quem não crê, desde que suas ações sejam boas. O ateísmo não pode fazer reconhecimento semelhante?
Qualquer impressão que se tenha do ateísmo em si é equivocada, pois ele não tem doutrina. O ateísmo é a condição da ausência de crença em deuses, nada mais.

mockup