Investir em pesquisa e inovação tecnológica e aumentar o número de registros de patentes são obrigações para empresas que pretendem sobreviver no mercado global. A análise é do superintendente de articulação instituicional da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Carlos Ganem, que é uma empresa pública ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
E os empresários do País, segundo o economista Ganem, têm se preocupado em buscar a inovação. Para comprovar essa constatação, ela aponta que o número de patentes requisitadas por empresas nacionais, junto à Organização Mundial de Propriedade Intelectual (Ompi), registrou crescimento de 43% nos últimos quatro anos. Mas ainda estamos longe dos índices obtidos pelos outros países dos Brics. No mesmo período, enquanto o Brasil registrou 572 pedidos de patentes, a China fez 16.406 requisições, a Rússia, 964, e a Índia, 1.430.
''A inovação é um ato de descontentamento com o que está em uso. Uma 'insubordinação com o que está valendo'. Como tal, é nova, muitas vezes cara e sem certeza de boa aplicação. Antes de estar no mercado, uma inovação é, no máximo, uma invenção'', aponta. Por isso, acrescenta o economista Ganem, que é coordenador nacional do Prêmio Finep, investir em processos, produtos e serviços inovadores tornou-se uma questão de sobrevivência.
Como o senhor avalia o panorama da inovação tecnológica no Brasil?
O Brasil avançou consideravelmente nos últimos anos em relação aos investimentos em inovação realizados por empresas de diferentes portes e de diferentes ramos de atividade. E essas empresas buscaram proteger a inovação por meio de patentes tanto no Brasil quanto no exterior. Isso representa uma doce realidade já que tínhamos, desde a década passada, crescido em número de artigos científicos, de publicações, obtendo índices destacados mesmo se comparados aos de países maduros no tema. As patentes, entretanto, insistiam em ficar em patamares sofríveis mesmo frente aos países dos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ou frente àqueles que, como o Brasil, adotaram a inovação como estratégia competitiva.
Por que o investimento em inovação e em patentes facilita a entrada dos produtos brasileiros em outros países?
Facilita porque proporciona a derrubada de barreiras à entrada de nossos produtos no exterior. Existem barreiras por conta da certificação dos produtos, da rastreabilidade dos insumos e da qualidade e da confiabilidade dos serviços das empresas e instituições dedicadas à exportação. Assim, vejo um panorama crescente que valida a difícil e muitas vezes onerosa atividade de apostar no desenvolvimento tecnológico e na inovação, trazendo com isso ''mais e maiores notas fiscais'', expressão cunhada pelo professor Sylvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Qual o papel da Finep nesse processo? Como é feito esse trabalho?
Em primeiro lugar tem uma ação precursora, do tempo de sua criação, na qual a Finep é apenas a financiadora do pré-investimento (etapa que antecede o investimento fixo). Daí seu nome, por contemplar ''estudos, planos, projetos e programas''. Passados alguns anos, dedicou-se a apoiar a infraestrutura de pesquisa e os programas de pós-graduação das universidades e instituições de ciência e tecnologia no Brasil. Essa mão de obra, daí egressa, bem formada e qualificada, deu ao País a oportunidade de formar seus próprios mestres e doutores e de criar a base da futura sociedade do conhecimento, que proporciona que o País cresça e avance na solução de problemas que o asfixiam.
A Finep então passou a atuar como Banco da Tecnologia e a buscar os meios e formas de permitir que as empresas alcancem seus melhores resultados pela introdução de modernas práticas e foco na inovação, sem abrir mão da proteção do ambiente e da sustentabilidade.
Hoje, se apresenta como a Agência Brasileira da Inovação. Atua em diferentes momentos e para ''distintos clientes'', por porte, gênero, natureza ou destinação. Seja por editais, seja por demanda espontânea; seja em operações diretas, seja pela participação de terceiros parceiros ou repassadores. Essa agência, na forma como se apresenta desde sua criação, é um modelo único no mundo.
O empresário brasileiro é inovador?
Sem dúvida. Às vezes, estudos tentam demonstrar o contrário. Afinal, a inovação é um ato de descontentamento com o que está em uso. Uma ''insubordinação com o que está valendo''. Como tal, é nova, muitas vezes cara e sem certeza de boa aplicação, quando posta em uso. Antes de estar no mercado, uma inovação é, no máximo, uma invenção. Diria que em condições concorrenciais a inovação é o caminho sem volta para aqueles que querem permanecer num mercado global e sem piedade com os fracos. Quem desiste, já morreu.
Como fazer para que mais empresas invistam em inovação tecnológica?
Em primeiro lugar, estímulos e créditos especiais como os que pratica a Finep, em condições de ''compra por seus tomadores''. Parece comercial e é. Em segundo lugar, fazer desse empresário inovador exemplo a ser seguido e estimulado a continuar a rotina do descontentar-se em dormir na cama já feita.
Como colocar isso em prática?
O Prêmio Finep de Inovação 2012, em sua 15 edição, é um exemplo disso. Reconhece e premia o esforço inovador de empresas e instituições de diferentes portes, concedendo-lhes o reconhecimento de uma premiação considerada no País o ''Oscar da Inovação''. Este ano, pela primeira vez, a Finep pagará aos primeiros colocados, em cada uma das categorias regionais, prêmio em espécie, de R$ 100 mil a R$ 600 mil. Esse ganhadores disputam a fase nacional, recebendo no Palácio do Planalto a maior honraria da inovação em nosso país. Tais prêmios, nas duas etapas, somam R$ 9 milhões.
Qual é a contribuição do governo nesse processo?
O governo faz seu papel. Seleciona e privilegia o aporte de recursos subsidiados para empresas e instituições de setores estratégicos e de forte competição internacional; elege segmentos que perderam força e competitividade; aposta em empresas com potencial inovador; cria mecanismos novos, como a subvenção econômica (prática antes inexistente no País) para empresas de distintos tamanhos, o que só foi possível após a Lei da Inovação.
E como melhorar a pesquisa científica?
O governo estimula, por meio de agências como o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), a ida de estudantes brasileiros das áreas de conhecimento mais carentes de boa mão de obra para centros de cxcelência no exterior, permitindo-lhes vivenciar experiências de estudo em países de ponta. Também existe a Lei do Bem, que traz para a empresa que a adota regime de isenção fiscal, quando contrata jovens doutores para lá trabalharem. E para não faltar entre os muitos instrumentos de alavancagem, a própria Finep privilegia os investimentos feitos por empresas que contratam novos profissionais para os centros de pesquisa e desenvolvimento, reduzindo encargos de sua operação de financiamento.
Qual a importância da ajuda governamental na inovação tecnológica, na pesquisa científica e na aplicação do resultado dessas pesquisas no dia a dia dos brasileiros?
É fundamental. Durante muito tempo, o governo atuou praticamente só nos mecanismos favoráveis à inovação. Como já mencionei, não é fácil romper a cadeia da repetição, da acomodação, da ausência do design, ''do fazer de qualquer jeito, porque afinal, o mercado compra tudo mesmo'', como diz o empresário incrédulo sobre as vantagens do investimento em inovação. Enquanto em países desenvolvidos, na década de 1990, o custeio da inovação era bancado em 80% por empresas, no Brasil, menos de 20% eram gastos pelas nossas. O governo fazia o que - em países como os EUA, Japão, países europeus e na jovem Coreia do Sul - eram as empresas que faziam.
Como proporcionar que os resultados cheguem ao cotidiano das pessoas?
Só pode ser considerado uma inovação o produto, processo ou serviço que tenha chegado ao mercado, que alcance a sociedade como algo acabado e concreto. Trata-se daquela invenção que muda a vida de quem a utiliza e dela se beneficia. Em todos os campos do conhecimento e setores econômicos.

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