O serviço de esgoto doméstico, abastecimento de água potável e coleta de resíduos está diretamente relacionado com o desenvolvimento de qualquer país, estado ou município. Investir no serviço é uma questão de sobrevivência. No entanto, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela um dado preocupante: 49,44% da população brasileira têm rede de esgoto. O número é inferior ao da rede de água encanada (81,11%), de lixo coletado (86,79%) e de eletricidade (98,18%).

Para se ter uma ideia, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 14 segundos morre no mundo uma pessoa vítima de doença por contaminação da água.

Para discutir o problema, a reportagem conversou com Mirian Ribeiro Alves, doutora em química e professora do Instituto Filadélfia (UniFil), que afirma que a situação de Londrina é boa: ''85% da população da cidade tem esgoto doméstico.''

Como a senhora avalia o serviço de saneamento básico no Brasil?
A situação do Nordeste é muito complicada. Lá as ruas têm problemas, há esgoto a céu aberto, não tem esgotamento doméstico canalizado. E as crianças andam no meio disso tudo. Eu me preocupo muito com as pequenas cidades do Paraná porque existem vários municípios em que se tem mais ou menos esse quadro. O problema da água também pode ser vinculado com o do saneamento. Muitas pessoas acreditam que o esgoto que é jogado no córrego acaba parando por ali, mas não é isso o que acontece. Todo córrego faz parte de uma bacia que vai cair em um rio e a água vai ser captada na próxima cidade.

E como é a situação no Paraná?
O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) tem melhorado bastante a situação. As pequenas cidades, que eu acho que consistem em um grande problema, estão começando a melhorar. Os prefeitos estão com boa vontade - não se sabe se é por força da lei. Mas a nível de Brasil, o Paraná se coloca bem.

Maringá está entre as dez cidades brasileiras que oferece o melhor serviço de saneamento básico. Na sua opinião, Londrina está longe de alcançar essa colocação?
Não. Os serviços oferecidos são eficientes. A estimativa é que em 2010, cerca de 97% do nosso esgoto vai estar totalmente canalizado e tratado de forma correta. Nós temos várias estações de tratamento que são modelo nacional. Embora nós não temos 100% de esgotamento doméstico canalizado, Londrina está bem. Alguns condomínios fechados já têm o próprio tratamento de esgoto, que funciona muito bem.

E isso pode ser uma tendência?
Mas aí o poder público lava a mão né?

Mas o poder público investe o necessário?
Não tem como fugir. Para melhorar a colocação do Brasil nos índices mundiais é preciso melhorar o saneamento básico, além de ser um caso de saúde pública. Se houvesse investimento em obras e em profissionais de maneira decente seria ótimo. Mas muitos profissionais não são bem qualificados e, muitas vezes, fazem coisas erradas. Eu já vi cidades onde a estação de tratamento de esgoto é ao lado da captação de água. Isso é um absurdo, porque existe contaminação por solo.

Quanto o saneamento básico pode afetar a saúde pública?
É uma roda viva. Se você não tem um sistema funcionando perfeitamente você vai ter doenças que podem se tornar um problema de saúde pública. Se o governo não tratar na base, vai precisar tratar depois que virar um caso de saúde. E vai gastar muito mais dinheiro.

De que forma a ação humana pode agravar a situação?
As pessoas jogam muito lixo na rua e, quando chove, a água que vai para o esgoto não escoa e pode acontecer enxentes. Quando isso acontece, você pode ter esquistossomose por urina de rato, cólera, bactérias e vírus sendo transmitidos. Se a população não colabora, jogando lixo e deixando determinados animais se desenvolverem, você vai reverter tudo isso em doença. Também devemos fazer a nossa parte.
Não manter uma rede de esgoto também é um problema. Tem muito lugar que o esgoto chega e a pessoa não liga na casa dela. Existem assentamentos em lugares incorretos e esses locais não estão preparados para a rede de esgoto. As pessoas precisam preservar certos locais e respeitar os fundos de vale. É uma questão de saúde pública. O ser humano tem a sua parcela de culpa e se ele não se conscientizar não há governo que dê jeito.

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