QUESTÃO DE SEGURANÇA - Estado tem que se fazer presente na Amazônia
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sábado, 21 de junho de 2008
Wilhan Santin<br>Enviado a Manaus 
Nascido no bairro do Juvevê, em Curitiba, o General Augusto Heleno, 60 anos, comandante militar da Amazônia, causou polêmica recentemente ao criticar a política indigenista vigente no Brasil, assunto que ele não comenta mais, explicando que está fora de sua alçada.
Muito respeitado pelos militares que atuam na região que dirige, Heleno tem a responsabilidade de garantir a defesa de um território para o qual estão voltados os olhos do mundo. No Comando Militar da Amazônia (CMA), estão aproximadamente 4 milhões de km2 de território e 11,5 mil km de fronteira com sete países sul-americanos. À disposição de Heleno, um contingente de 23 mil homens e modestas condições operacionais, como apenas 12 helicópteros para cobrir uma área que corresponde a aproximadamente 50% do território brasileiro.
Com a experiência de ter dirigido a Força de Paz na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti por 15 meses, o general, que aposta nos guerreiros de selva do Brasil e diz ter orgulho de ser paranaense, falou sobre as atuais condições do Exército Brasileiro para defender a floresta.
O senhor considera o contingente de 23 mil homens que atuam sob o seu comando suficiente para a defesa territorial da Amazônia?
Se você perguntar a qualquer comandante militar se ele quer mais efetivo, a resposta nunca será negativa. Efetivo é poder. Porém, na Amazônia, por conta das características da área, qualquer aumento de efetivo significa servidão logística maior. Prefiro que nossas instalações sejam terminadas e aperfeiçoadas do que criar coisas novas. Tenho pleiteado o nosso reaparelhamento, a melhora substancial dos nossos meios de combate. Se não estivermos bem aparelhados, vamos ter um efetivo grande e mal apoiado. Isso não resolve.
O Brasil ainda está muito longe de chegar à logística necessária para defender a Amazônia?
A qualidade logística nós temos, graças ao apoio da Força Aérea Brasileira e a tudo que aprendemos. Falta infra-estrutura, algo que não depende de nós e que estamos lutando muito para conseguir. Eu tenho pelotão que ainda tem apenas oito horas de luz por dia. A minha briga é para que ele tenha 24 horas de luz. Em pleno século 21, não se aceita mais que um pelotão em condições de isolamento não tenha 24 horas de luz por dia, água potável, Internet e outras condições de se comunicar com a brigada toda vez que achar necessário.
A FOLHA acompanhou o treinamento de oficiais do Exército para operações na selva. É perceptível que o preparo é intensivo e muito se fala sobre a importância dos guerreiros de selva. A aposta do CMA, em caso de um conflito bélico na Amazônia, é nesses guerreiros?
Sem dúvida nenhuma. Nossa garantia maior de soberania da Amazônia é possuir o melhor combatente de selva do mundo. Esse combatente é o soldado e o cabo amazônicos, com uma identidade muito maior que a nossa com a selva. Além disso, temos o Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs), que é também um centro de pesquisa e de aperfeiçoamento de doutrina. Não dependemos mais de manuais estrangeiros.
Muito se fala em uma possível interferência internacional na Amazônia. O senhor acredita nessa possibilidade? Se isso acontecer, seria algo parecido com uma guerra do Vietnã?
Eu não sou catastrófico. Não vejo a possibilidade de isso acontecer a curto prazo, mas, como força militar, temos que estar preparados. Pode ser contra um inimigo igual ou inferior a nós. Aí vamos brigar utilizando o que nós sabemos de operações na selva, com todas as características de doutrina que desenvolvemos na Amazônia. Também podemos ter um inimigo flagrantemente superior. Para esse caso, temos treinado e desenvolvido a estratégia de resistência, que se assemelha bastante ao que aconteceu no Vietnã e que acontece hoje no Iraque. São ações para transformar a permanência desses inimigos mais fortes em transtornos. No entanto, há uma terceira forma de atuação estrangeira, talvez a mais preocupante: a ocupação progressiva, feita de maneira bem camuflada por meio de ONGs que não são sérias e acabam se valendo da ausência do Estado. Isso tem sido alertado e têm acontecido respostas efetivas por parte do Ministério da Defesa e do Governo Federal. Nós temos esperança de que a coisa ande, que tenhamos cada vez mais a presença do Estado. O trabalho deve ser feito de forma conjunta outras instituições como a Polícia Federal, Incra, Funai, Receita Federal. Todos têm responsabilidade.
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, cogitou recentemente a criação de uma força ambiental para atuar na região amazônica. O senhor considera que essa proteção pode ser feita pelo Exército?
Nós já fazemos isso. Mantemos uma grande colaboração com o Ibama na repressão aos ilícitos que causam crimes ambientais. Recentemente, fizemos uma grande operação contra garimpo ilegal. Quanto à declaração do ministro, ele tem todo o direito de ter essa aspiração, mas nós não fomos consultados.
Atualmente, o Exército só tem poder de polícia na faixa de fronteira. O que o senhor pensa sobre uma possível mudança na legislação, conferindo esse poder ao Exército em outras áreas da floresta?
Seria muito importante, nós precisamos ter respaldo legal. O Ministro Nelson Jobim (Defesa) tem insistido quanto à atuação do Exército na garantia da lei e da ordem fora da faixa de fronteira. Precisamos ter um instrumento legal que nos apóie para atuarmos como polícia fora dessa faixa.
A ação do Exército poderia ser mais efetiva se houvesse a mudança legal?
Não é só a mudança legal. Para atuar em uma área como a Amazônia, de tamanha extensão territorial, é preciso pensar em outras coisas. Por exemplo: tenho uma força de helicópteros que considero muito modesta, com apenas 12 aparelhos. É um instrumento altamente versátil e necessário, porém, é caro e com sérias limitações em termos de Amazônia. Às vezes, a gente pensa em usar um helicóptero, mas, quando vamos conversar com os responsáveis pelo batalhão de aviação, descobrimos que o tempo de deslocamento é maior do que imaginamos, pois é necessário reabastecer e que se tenha postos pelo caminho. Quem está fora da Amazônia pensa que é só pegar a aeronave em Manaus e sair, mas não é assim. Aqui tudo é grandioso, até os problemas. Vigiar 11,5 mil km de fronteira praticamente quase toda em área de selva é uma tarefa praticamente impossível de ser atingida com resultado total.
É possível dizer que, com a logística e o efetivo que o Exército tem na região, a Amazônia está protegida?
Sim. Pela extensão territorial, temos um dispositivo de vigilância aprofundado na própria Amazônia: pelotões de fronteira, com efetivo de 40 a 60 homens; companhias especiais de fuzileiros de selva ou de fronteira e brigadas de infantaria de selva, cada uma ocupando uma porção do território amazônico. Cada brigada tem missões específicas, pois existem várias Amazônias aqui, cada uma com características diferentes, problemas diferentes. Precisamos de reaparelhamento? Precisamos. Mas, dentro do contexto que é definido pelas forças armadas, não queremos ter um país belicista, ter um Exército para fazer ações com idéias de conquista. Queremos ter forças armadas compatíveis com a estatura estratégica do Brasil.


