QUESTÃO DE SAÚDE? - Usuários de drogas podem receber seringas do governo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
A aprovação na Câmara dos Deputados do projeto da deputada federal Cida Diogo (PT-RJ) que prevê legalizar a distribuição de seringas, agulhas e preservativos para usuários de drogas, dividiu opiniões e causou polêmica. A medida, cujo texto foi encaminhado ao Senado, é uma política de redução de danos, que visa diminuir a transmissão do vírus da AIDS.
A proposta foi bastante criticada. Diante da discussão, Flávio Roberto Almeida Lemos, psicólogo, teólogo e responsável pela Casa de Recuperação Cravi, que atua há 11 anos em Curitiba, fala da política de redução de danos e atesta: ''O governo falha grosseiramente na assistência aos dependentes''.
Como o senhor se posiciona diante da proposta que prevê a distribuição de seringas descartáveis, agulhas e preservativos a usuários de droga?
Isso é uma política de redução de danos. Não me posiciono nem a favor nem contra. Entendo que o processo de construção de uma identidade é lento. E, em algum momento, o cidadão precisa trabalhar redução de danos, mas com a consciência de que é necessário buscar a abstinência. A filosofia da política nacional antidrogas é a redução de danos. Se o sujeito fumava crack é melhor ele cheirar cocaína. Se cheirava cocaína é melhor fumar maconha. E isso deve acontecer num processo de recuperação que trabalhe a consciência de que é preciso parar de usar droga.
Essa medida é uma forma de liberar e estimular o uso de droga?
Pensando tecnicamente essa não é a perspectiva. Claro que vai ter sujeito que vai pensar assim, mas a idéia é reduzir o dano. Se você chega em um viciado falando em abstinência total, ele foge. Por isso, para o usuário de leve a moderado a redução de danos funciona muito bem. Agora para o usuário grave, a redução de danos pode funcionar por pouquíssimo tempo.
A medida pode contribuir na recuperação de usuários leves e moderados?
Todas as propostas são válidas. O que não pode acontecer é a hegemonia, ou seja, uma política única. Não se pode trabalhar só com a redução de danos, que atualmente é a idéia governamental. Temos que combater essa mentalidade.
Nesse sentido, o que pode ser feito?
Tem que incentivar outras modalidades, como a clínica, a hospitalar, a ambulatorial, o grupo de autoajuda e a comunidade terapêutica. O Brasil está vivendo uma desassistência aos dependentes químicos. A redução de danos é a ponta do ''iceberg''. Precisamos trabalhar a prevenção primária, secundária e terciária, que inclui tratamentos de todas as formas possíveis e para todos os tipos de pessoas. É preciso aliar a redução de danos à outras propostas, que é o que falta no país.
Então o governo falha na assistência aos dependentes?
Grosseiramente. Teria que trabalhar uma assistência na prevenção e no tratamento. O que existe no país são os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em que a filosofia é a redução de danos. O governo não oferece uma outra proposta. Sinto um certo descaso do governo. Muitos médicos não conhecem as comunidades terapêuticas e quando conhecem é com preconceito devido a alguma que não funcionou. É uma falha de socialização e de informação.
Sobre as campanhas realizadas, o senhor acha que são eficazes? Atingem o público alvo?
Campanha antidroga nunca vai ser eficaz. A gente não tem que combater a droga e sim trabalhar com o sujeito que procura a droga. Muito mais do que redução de oferta, seria a redução de demanda. É fazer com que o sujeito desde pequeno aprenda a não escolher a droga. E quando a família percebe que o filho está começando a se envolver, é preciso buscar ajuda especializada. O programa da Cravi se divide em três estágios: adaptação e aceitação; responsabilidade; e senso de utilidade. Os participantes ficam, no máximo, seis meses dentro do programa.


