Articulista da revista Veja e ganhador do prêmio Jabuti em 2005, Gustavo Ioschpe esteve em Londrina na semana passada para ministrar a palestra ''Educação de Resultados e o Futuro do Brasil''. Partidário de que o Brasil perdeu o bonde da história na educação, ele defende que o atual formato de ensino ofertado no País condena a população ao fracasso individual e ao não-desenvolvimento de suas potencialidades. ''Já na primeira série do ensino fundamental temos uma grande dificuldade com o processo de alfabetização. Isso denota que esse processo já nasce torto'', afirma.
Em entrevista à FOLHA, Ioschpe, que é graduado em ciência política e administração estratégica pela Universidade da Pensilvânia e especialista em economia da educação com mestrado pela Universidade de Yale, nos EUA, fala ainda sobre a cobrança de anuidade para alunos de melhor poder aquisitivo que cursam universidades públicas, o que chama de justiça social: ''hoje as pessoas mais pobres pagam a conta das mais ricas''.
O senhor defende a cobrança de anuidades escolares dos alunos abastados que cursam universidades públicas. É uma questão de ''justiça social''?
Exato. Quando uma pessoa rica cursa uma universidade pública sem pagar a conta é paga por outras pessoas. Isso é o que se chama, em economia, de política fiscal regressiva: você faz com que os mais pobres paguem pelos mais ricos. Outro fator importante: a universidade pública brasileira é a mais cara do mundo, como mostrou recente estudo feito em 40 países. A estrutura é desorganizada e esse alto custo é daninho para o Brasil, pois consome fatia estupenda de recursos.
Qual diagnóstico o senhor faz da educação, no Brasil?
Estamos perdendo o bonde. O Brasil está extremamente defasado tanto em termos de qualidade quanto de quantidade educacional: nossa taxa de matrículas na universidade é das mais baixas, inclusive em relação aos países com o mesmo nível de renda e tradição histórica. Em relação à qualidade, essa defasagem se tornou ainda mais gritante nos últimos 20, 30 anos, porque os países desenvolvidos fizeram um esforço muito grande de massificação da educação. O Brasil acabou ficando para trás e isso tende a trazer consequências muito funestas para o desenvolvimento futuro.
Quando o senhor se refere à falta de qualidade, ela se acentua em qual esfera?
Em todas. O problema é sistêmico e tem início logo no começo do sistema educacional. Já na primeira série do ensino fundamental temos uma grande dificuldade com o processo de alfabetização, que gera uma grande taxa de repetência, similar àquelas encontradas em países da África subsaariana. Isso denota que esse processo já nasce torto desde seu início, convertendo-se em uma bola de neve.
O Brasil tem índice de repetência de 32% na primeira série do ensino fundamental. É mais alto do que o do Paraguai, com 14%, e da Indonésia, com 11%. Esse ensino fraco condiciona os brasileiros a quais fatores?
Sob o ponto de vista humano, esse ensino condena a pessoa ao fracasso individual e ao não-desenvolvimento de suas potencialidades. Em termos humanos, não há nada pior que isso. Sob os aspectos econômicos, a conta é simples: pessoas mais instruídas têm rendas mais altas. Em linhas gerais, esse ensino fraco condiciona às perdas como um todo.
Muitos condenam sua postura de economista em relação à educação...
Temos a tendência de condenar as pessoas e as áreas de pensamento a escaninhos estreitos em que só se pode falar de determinado assunto quem é formado naquela área. A realidade da vida não é essa. Um exemplo: a segurança pública pode ser analisada sob o ponto de vista econômico, sociológico, educacional, entre outros âmbitos. As leituras não têm de ser postas como as principais e sim como somatórias. Como estamos em uma situação emergencial, não vejo como recusar opiniões e sugestões diferentes.
Num paralelo com a educação de outros países, qual o modelo a ser ''copiado''?
Não há um modelo a ser copiado. Temos de adaptar projetos às realidades e necessidades locais. A educação alemã, por exemplo, é irrepreensível, muito boa. Mas é totalmente direcionada às indústrias de alto valor agregado, que funcionam naquele território. Por lá, aos 13, 14 anos, a criança já escolhe se vai seguir uma educação acadêmica ou voltada ao mercado de trabalho. Por aqui, podemos nos inspirar no uso de dever de casa, ferramenta pouco utilizada no Brasil. Um estudo realizado mostrou que, em Minas Gerais, alunos que têm seus deveres de casa corrigidos com ''certo'' e ''errado'' têm desempenho acadêmico pior do que os que têm seus deveres repletos de comentários e considerações dos professores. O absenteísmo de professores e uma educação mais reflexiva também são tópicos a serem observados.

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