Ouvir Carlos César Arcolino falar é ter contato com uma experiência superior - e indissociável - do milagre que ocorreu em sua família. Sua esposa, Elizabeth Arcolino, há oito anos, sob a escolha de optar pela sobrevivência da filha que levava no ventre ou da própria vida, apostou na continuidade da gestação - e salvaram-se ambas. O feito ensejou a canonização, pela Igreja Católica, em 2004, de Santa Giana Beretta Molla - uma médica italiana (1922-1962) que passou por dilema semelhante em sua vida e foi invocada pela família de Franca (SP).

Após uma juventude afogada nas drogas, Carlos César transformou-se num sinônimo de atividade: fundou dez casas de recuperação de dependentes químicos pelo País; é coordenador do grupo de jovens do ''Amor Exigente'' - entidade que trabalha a qualidade de vida das famílias; além de ministrar palestras. No início de abril, estará em Londrina para uma maratona de encontros. A seguir, sua entrevista por telefone à FOLHA.

Como o milagre apareceu em sua vida?
O verdadeiro milagre aconteceu na época que eu estava preso e acabei com aquela resistência às coisas de Deus. Naquele mundo turbulento de dependência química, de perda de pais, tive um despertar espiritual na cadeia. A partir daí, comecei a alimentar uma espiritualidade e consequentemente vieram os dois milagres - o da minha filha ter nascido sem nenhum problema e o da esposa ter sobrevidido com a perda do líquido amniótico total e a perda de 80% do sangue. Os dois foram consequência de ter dado uma oportunidade para Deus na vida.

Quem era o Carlos César antes disso?
O envolvimento com a droga levou a uma perda muito grande da honra, da dignidade e do meu respeito. Anestesiei os valores que tinha adquirido enquanto meu pai estava vivo. Sem um sentido, me degradei, fui morar em construção abandonada, não tomava banho, não escovava dente... Cheguei no grau do animal mesmo e perdi 10 anos de minha vida.

O casamento veio depois da recuperação?
Com certeza, porque no mundo em que vivia, sem ter zelo pelo próprio corpo, não tinha como fazer escolhas. Depois é que fui encontrar minha esposa e readquirir tudo aquilo que estava anestesiado.

O diagnóstico de sua esposa foi terminante?
Sim. Ela estava grávida de 16 semanas e a ciência toda clamou para a gente tirar o feto. Era uma gravidez seca, sem água, não havia líquido amnitótico. O grupo de seis médicos disse que, para preservar a mãe, teria de interromper a gravidez. Minha esposa poderia morrer.

Como chegaram à opção de manter a gravidez?
Aí entrou a história da Santa Giana, que nem Santa era na época. Ela era uma médica pediatra, que morava em Milão, e teve um caso parecido com o nosso. Só que no caso dela, entre a criança e a própria vida, ela falou: salvem a minha filha, porque eu estou nos braços de Deus. E foi isso que aconteceu: a filha nasceu, e em seguida, sete dias depois, a mãe morreu. Nós pedimos a intervenção dessa mulher e quando nasceu a nossa menina, perfeita, minha esposa também conseguiu se sobressair da perda de sangue.

Vocês não titubearam ao fazer a escolha?
Não, porque nessa hora a gente escutava um coração. E se um coração bate não podemos tirar o feto. Estávamos convencidos de que a gente precisava fazer a nossa parte, que era não tirar a criança. Então, conscientemente, fizemos a escolha por manter a gravidez, correndo os riscos que toda a medicina já tinha colocado para a gente.

Daí começou o processo de canonização...
Todo isso foi documentado durante quatro anos e, depois da avaliação dos médicos, o Papa João Paulo II reconheceu o milagre e a declarou Santa: Santa Giana Beretta Molla. Fomos participar da festa maior, a canonização no Vaticano. Toda a nossa família, as pessoas envolvidas, estavam lá. Inclusive, o próprio marido e a família da Santa também estavam presentes.

Qual o significado disso tudo para vocês?
Para nós tiveram dois significados: primeiro o de alegria e o segundo de responsabilidade. De alegria por poder cooperar com tantas pessoas que, ao conhecer essa história, também se apegam em Deus e com Deus. E a certeza também da nossa responsabilidade porque somos os instrumentos. Deus é o mais imporante, nós fomos simplesmente canais da graça. O milagre não pertence à nossa casa, à nossa família. Pertence a um grau universal. Acreditamos que Deus veio em auxílio às nossas fraquezas e hoje precisamos passar isso para frente.

Como se chama sua filha - fruto do milagre?
Chama-se Giana Maria, em homenagem à Santa Giana. Tem hoje oito anos e é uma criança perfeita.

Serviço:
Informações sobre a visita de Arcolino a Londrina: (43) 9123-7700 (Marcelo)
Amor Exigente: www.amorexigente.org.br ou (43) 3329-7703 (Mário)

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