João Campos, docente há 25 anos do departamento de Saúde Coletiva do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina, comenta sobre a necessidade de uma reformulação no modelo de internato atual. Na reformulação do currículo do curso, em 1998, Campos atuou à frente da equipe como coordenador do colegiado.

Como o senhor avalia o modelo do currículo do curso de medicina?
Sempre nos preocupamos muito com o currículo e há dez anos desenvolvemos o que chamamos de Sistema Integrado de Avaliação do Curso de Medicina, no qual se pretende desenvolver as questões éticas, humanísticas de uma maneira bastante especial. Procuramos avaliar o curso tanto do ponto de vista da interdisciplinaridade quanto da interação com os serviços da comunidade e das habilidades profissionais. Mas o internato sempre foi o nosso ponto fraco e continua sendo feito como há 40 anos.

Não seria necessário investir numa formação humanística?
Gostaríamos que os estudantes do quinto e sexto ano tivessem uma melhor atuação fora do Hospital Universitário, e fossem inseridos em outros cenários, para uma maior atuação na rede básica de saúde. Hoje, o município tem um dos melhores serviços de atendimento pré-hospitalar, o Siate; um dos melhores serviços de internação domiciliar, referência para o Brasil inteiro; o Pronto Atendimento Infantil (PAI), que atende grande parcela das crianças da região; e nossos alunos não passam por lá.

Então o primeiro passo para se formar profissinais com essa visão mais humana seria a saída da redoma do HU?
Exatamente. Nosso internos precisam sair do HU. O programa de internato por um lado é bom porque trata-se de uma oportunidade de aprendizado muito grande. Por outro lado, os alunos ficam sob pressão maior ainda, durante muito tempo. Para se ter uma idéia, eles cumprem plantões das 7 às 19 horas e mais um de 24 horas por semana. No HU, o estudante é interno dependente, diferente de outros hospitais fora de Londrina, que dependem dos residentes. Precisamos de uma mudança urgente no internato médico.

O senhor participou da reformulação do currículo em 1998. Diante dos últimos acontecimentos, o senhor acredita que há necessidade de uma nova reformulação?
Acho que nós deveríamos avançar na questão do internato médico. Nós mudamos o curso pela metade. Foi uma mudança vitoriosa. Só que foi uma mudança do primeiro ao quarto ano. Os alunos saem de um currículo em que eles são estimulados a aprender, estudar, e ''caem'' no HU.

O que os próprios alunos e até mesmo a sociedade podem tirar de lição do último episódio ocorrido no Hospital?
O curso precisa avançar na sua reformulação, mas o Projeto Político Pedagógico não é o responsável pelo ocorrido. Desvios de conduta são de grupos de alunos despolitizados, inconsequentes, que são minoria. Esse comportamento reflete falta de compromisso social. Mas a grande maioria dos alunos não está nesse grupo. O Hospital Universitário tem um programa de qualidade total, e a direção faz uma avaliação sistemática dos alunos, ouvindo os pacientes. A resposta tem sido sempre excelente. O que significa dizer que a população sempre valorizou o trabalho dos alunos. Acho que devemos nos preocupar, sim. Mas acho ainda, que precisamos construir uma agenda positiva diante desse fato. Na minha opinião, acredito que o curso deva convocar um Fórum Extraordinário envolvendo alunos, professores, ex-alunos e o hospital para repensar as condições do curso, seu desenvolvimento. É o momento de todos pararmos para pensar e discutir como podemos melhorar e aprender com esse erro. Isso é uma coisa grave que merece ações de mudança.

Os alunos de Medicina se formaram na última sexta-feira. Antes da cerimônia, tiveram uma palestra sobre ética profissional que, ao final do curso, parece irrelevante. Os alunos têm aulas durante a graduação com esse propósito?
Do primeiro ao quarto ano existe a preocupação ética em todos os problemas discutidos. No quinto, há uma disciplina sobre o assunto. Apesar disso, percebo que esse é um aspecto que deve ser mais valorizado. Tecnicamente os alunos estão muito bem preparados, mas no aspecto humano, realmente precisariam ter uma formação melhor. Esse jeito de ensinar está completamente superado. Digo novamente que precisamos repensar o internato.

Qual atitude deve ser tomada com os participantes do tumulto?Esses alunos deveriam fazer um trabalho comunitário durante um ano. Seria a melhor maneira de educá-los, pois iriam se preparar melhor e efetivamente aprender os aspectos éticos e humanísticos. Essa estratégia é usada em vários países da América Latina, como parte complementar ao currículo. Na Colômbia, eles chamam esse período de serviço civil obrigatório.

O profissional da área médica representa um status de pessoa bem-sucedida. Ao mesmo tempo, muitos médicos e estudantes se julgam acima do bem e do mal. Como mudar essa mentalidade?
Eu me lembro que um professor de História - quando ainda tinha o vestibular de inverno e a concorrência chegava a 200 para uma vaga - dizia que não era uma concorrência humana, mas concurso para ser Deus. O estudante que consegue vencer a barreira do vestibular, tem um pouco essa sensação de que ele venceu o concurso para ser Deus. A melhor maneira de reduzir essa sensação é estimular um trabalho multiprofissional, que temos feito com outros estudantes da própria área da saúde. Esta oportunidade de trabalhar com uma equipe multiprofissional vai fazer com que eles se abram a uma realidade, que é a realidade do futuro. O médico precisa aprender a trabalhar em equipe. Isso vai ajudá-lo, inclusive, a se relacionar com a população.

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