Documentário exibido recentemente num desses canais via satélite abordou os primeiros anos de vida de um invento extraordinário: a televisão. Os ingleses foram pioneiros no final dos anos 20. Na década de 30 o sistema passou a existir experimentalmente também na Alemanha e nos Estados Unidos. O documentário mostrou cena ocorrida na Alemanha por volta de 1937, onde aparece o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, doutrinando um grupo de intelectuais sobre a melhor forma de utilizar a sensacional inovação em benefício dos objetivos nazistas. Ele dizia, num tom imperativo, mais ou menos o seguinte: ‘‘Eu não espero que produzam programas de alto nível, voltados para a elite. Vocês têm que apresentar as imagens adequadas, usando a linguagem mais simples, a mais acessível à compreensão do povo’’.
Em 1939, com o início da guerra, as transmissões de TV foram interrompidas. A propaganda continuou forte na imprensa e no cinema e tinha um efeito devastador. No final da guerra, em abril de 1945, um cinegrafista registrou o trauma de uma cidadã berlinense diante do aparecimento de tanques russos em meio aos escombros de seu bairro. Ao ser informada que se tratava do exército soviético, a pobre mulher reagiu: ‘‘Não é verdade. Herr Goebbels garantiu que nenhum tanque russo chegaria a Berlim!
Talvez essa pequena fábula nada tenha a ver com os tempos modernos. Talvez...
Sou daqueles que acreditam que a história não se repete nem como farsa. Dela, porém, sempre podemos tirar lições, como, por exemplo, que há enorme risco quando os governos se metem a fazer propaganda acreditando que podem esconder a verdade todo o tempo. O risco é ainda maior quando os governos passam a acreditar na própria propaganda. É preocupante observar que essas duas condições estão presentes atualmente em nossa propaganda oficial. É óbvio que não se trata de estabelecer paralelos entre regimes e épocas tão diferenciadas, nem entre pessoas, o que seria um contra-senso. Observemos, porém, algumas características da propaganda oficial sobre dois problemas graves, o do desemprego e a questão agrária.
No primeiro caso, o governo faz um grande esforço para convencer a sociedade que o corte de empregos na indústria decorre exclusivamente da inserção da economia brasileira no processo de globalização. A propaganda na TV - como aconselhava o ‘‘mestre’’ lá de cima - é feita em linguagem simples e acessível, com apoio em moderna técnica de ‘‘merchandising’’. Diz aos trabalhadores que eles devem conformar-se com a perda dos empregos porque esse é o preço da modernização e que eles serão mais felizes na ‘‘economia informal’’. As verdadeiras causas do desemprego, como o massacre das taxas de juros e a perda do dinamismo nas exportações, são cuidadosamente omitidas. Fugindo às evidências, sustenta a metodologia canhestra do IBGE, segundo a qual o desemprego não ultrapassa 6% da força de trabalho. Pesquisas de institutos independentes mostram que o problema é bem mais dramático: o desemprego atinge 9% na faixa etária entre 18 e 25 anos, na manufatura paulista e carioca é superior a 10%. E está presente em 26% dos domicílios brasileiros. É essa a massa de desemprego real com que a sociedade está convivendo.
Na questão agrária, a propaganda enganosa é ainda mais evidente, como soube mostrar com simplicidade e clareza um dos líderes do MST, o sr. Stédile. De que adianta anunciar que vai resolver o problema assentando 100 mil famílias, enquanto esconde que a política agrícola coitou o emprego de 400 mil, nos últimos dois anos? Provavelmente, por acreditar na própria propaganda, o governo imaginou que a marcha do MST reuniria apenas o suficiente para ocupar a mesa de um jantar como os do Rotary, em Brasília...
Há uma inquietação crescente na sociedade em relação ao problema do desemprego. Lideranças trabalhistas se organizam para manifestações em julho próximo. Não vá o governo acreditar - como a pobre senhora berlinense - que elas nunca chegarão a Brasília.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP)

mockup