QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA - Fumo passivo faz tanto mal quanto o hábito de fumar
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de novembro de 2010
Érika Gonçalves<BR>Reportagem Local 
Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), cerca de 18% da população brasileira fuma, o que representa cerca de 25 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 15 anos. A pesquisa apontou ainda que uma em cada cinco pessoas foi exposta à fumaça do cigarro em locais públicos. Isso corresponde a aproximadamente 26 milhões de pessoas, das quais 22 milhões são não fumantes. Dez por cento dos jovens são expostos ao fumo passivo, totalizando 6,2 milhões de pessoas.
A lei antifumo reduz a incidência. Mas há um tipo de fumo passivo ainda mais perigoso: o do bebê em gestação. Jaqueline Issa é cardiologista e coordenadora do Programa de Tratamento de Tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP (Incor) e participou de uma pesquisa envolvendo as gestantes do Hospital das Clínicas de São Paulo. O estudo detectou que 30% delas omitiram que eram fumantes.
Nesta entrevista, ela destaca que o hábito de fumar durante a gravidez representa risco importante de desenvolvimento de enfermidades pela criança. A mãe que fuma aumenta a incidência de doenças respiratórias no filho, a criança tem, com maior frequência, otites, comprometimento da capacidade pulmonar. O déficit de atenção é três vezes mais comum em filhos de fumantes do que em filhos de não fumantes, alerta.
Quais os riscos para quem é fumante passivo?
Basicamente os mesmos de um fumante ativo. A diferença é de que o risco é um pouco menor. As doenças são as mesmas dos fumantes: doenças cardiovasculares, risco de infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC), que em um fumante seria três vezes maior do que de um não fumante. Quando se compara um fumante passivo com um não fumante, você tem um risco duas vezes maior. Há também o risco de doenças respiratórias: asma, rinite, todos os processos inflamatórios que a fumaça do cigarro pode determinar e também câncer de pulmão. O fumo passivo é a terceira causa de morte evitável.
Respirar em ambiente poluído pela fumaça do cigarro equivale a fumar quantos cigarros?
Depende do tempo de exposição. Trabalhos feitos com garçons mostram que depois de uma jornada de oito horas, dependendo do ambiente em que ele trabalha, se for totalmente fechado como uma casa noturna, é como se ele tivesse fumado dez cigarros. Quanto mais fechado e mais pessoas tiverem fumado lá dentro, maior a exposição.
Depois de quanto tempo de exposição podemos considerar que uma pessoa é fumante passivo?
Há trabalhos que mostram que após 30 minutos de exposição passiva. Você tem alteração nas paredes dos vasos sanguíneos, o seu endotélio tem uma lesão e demora até 12 horas para voltar a funcionar normalmente. Disfunção endotelial é a perda da capacidade que os vasos têm de se dilatarem. Com isso, se o paciente já tem pressão alta, ou se o sangue já coagula com mais facilidade, ou até mesmo está com um estado infeccioso, pode ser suficiente para deflagrar um evento agudo, como um infarto ou um AVC. Não existe fumaça segura em ambiente fechado.
Uma apresentadora de TV que deu à luz recentemente afirmou que o estresse pela abstinência é pior para o bebê do que fumar. A quais riscos filhos de fumantes estão expostos?
Isso é um absurdo, é o cúmulo da ignorância em tabagismo. Provavelmente, ela, como tantas outras grávidas, mentem, omitem a informação de seus médicos e da família por vergonha de admitir que estão fumando durante a gestação. Não é infrequente a grávida dizer que parou de fumar, quando não parou. E a única maneira de você detectar isso é através de avaliações específicas.
Em parceria com a Obstetrícia do Hospital das Clínicas de São Paulo, estamos fazendo um protocolo que utiliza um monoxímetro - que mede monóxido de carbono no ar respirado - em grávidas e mais de 30% omitiram a informação de que eram fumantes. Há uma falta de preparo da classe médica e da população de saber que tabagismo é doença, estando grávida ou não, e existem recursos e formas adequadas de tratamento. O tabagismo é uma doença negligenciada e na gravidez ela é esquecida porque não se faz uma abordagem adequada às grávidas para que elas deixem de fumar.
Há mecanismos que trazem conforto à paciente evitando que ela volte a fumar e que proteja o bebê. A mãe que fuma aumenta a incidência de doenças respiratórias no filho, a criança tem, com maior frequência, otites, comprometimento da capacidade pulmonar. O déficit de atenção é três vezes mais comum em filhos de fumantes do que em filhos de não fumantes.
São tratamentos seguros?
Muitas vezes se usa reposição de nicotina. Tem grávidas que têm uma abstinência de forma muito intensa, não dá para tratá-las sem usar nicotina. Muitas pela própria gravidez conseguem sublimar a vontade. Mas algumas, que têm dependência maior, ainda apresentam sintomas. É melhor usar um produto à base de nicotina que o médico prescreva, do que ingerir as 4 mil substâncias tóxicas do cigarro. Jamais a grávida deve se automedicar. Existe o risco em função da dose, da quantidade, só o médico vai poder orientar.
A senhora acredita que os jovens, frente a essas campanhas mais agressivas, estão fumando menos?
No sexo feminino o número de jovens fumantes hoje é maior do que no passado. Em lugares como o Sul do País, tem mais jovens mulheres fumantes do que homens. Criou-se uma cultura de que cigarro emagrece, que inibe a fome, que é sexy fumar. Existe também a propaganda subliminar, como no cinema. Mesmo todo o conhecimento a respeito dos malefícios que o cigarro causa não é suficiente para fazer as pessoas deixarem de fumar.
A lei antifumo deve colaborar para diminuir o número de fumantes?
A expectativa é que sim. Quando se tem restrição social, o cigarro não é bem-vindo em todos os lugares, as pessoas começam a se incomodar. É bem provável que nos ambientes em que era permitido fumar, ambientes que eram propícios a rituais de iniciação, hoje não tendo mais fumaça de cigarro, aquele jovem que não era muito propício a fumar se proteja.


