Não há dúvida de que o lixo representa um grande problema ambiental no Brasil. O gerenciamento inadequado dos diversos tipos de resíduos sólidos, como o orgânico, reciclável, industrial, hospitalar e tóxico, pode afetar a qualidade de vida da população. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são produzidos cerca de 157 mil toneladas de lixo domiciliar todos os dias no país.

Em entrevista à FOLHA, Cláudia Feijó, mestre em geografia, meio ambiente e desenvolvimento, além de coordenadora do curso de Gestão do Meio Ambiente da Unopar, discute a destinação do lixo, o baixo índice de recilclagem no Brasil e afirma: ''o principal problema brasileiro é a questão dos lixões.''

Ela também critica a ausência de uma legislação nacional para dar diretrizes aos estados no que diz respeito aos resíduos sólidos. ''O projeto de lei ainda tramita na Câmara.''

Como a senhora avalia a situação do lixo no Brasil?
É preciso haver uma preocupação em relação aos resíduos no país porque são um fator predominante de impacto ambiental. Hoje em dia existem várias legislações e resoluções que colocam que o gerador é o responsável pela destinação do seu lixo. Todos são responsáveis do berço ao túmulo, ou seja, desde o momento que gerou até a sua disposição final. A legislação e a fiscalização existem, mas muita gente ainda precisa se conscientizar. O principal problema que o Brasil enfrenta é a questão dos lixões. Para resolver a situação, a sociedade precisa se informar, além de haver políticas públicas, vontade e interesse das partes. A própria política nacional de resíduos sólidos é um projeto de lei que tramita na Câmara. Muitos estados têm suas próprias políticas, como o Paraná com o Programa de Desperdício Zero. Mas falta algo a nível federal para dar diretrizes a todos os estados.

Apenas 12% do lixo é reciclado no Brasil, o que constitui um problema nacional. Na sua opinião, por que o índice é baixo?
Falta muita conscientização. Londrina é a cidade que mais recicla no Brasil. O trabalho aqui começou no lixão, iniciando pela retirada dos catadores e pela formação das ONG's, que se organizaram e determinaram como deveria ser o processo da coleta seletiva. Nesse sentido, Londrina se destaca. O esquema porta a porta foi inventado na cidade. Nos outros municípios existem os postos de entrega voluntária, que dificultam muito. Quando existe o trabalho de passar nas casas, não é o esquema corpo a corpo.

Além do prejuízo financeiro (o país deixa de gerar cerca de U$ 12 bilhões com a reciclagem), que outros problemas o desperdício de resíduos recicláveis pode causar?
Inúmeros. A população precisa compreender que a coleta seletiva evita a contaminação ambiental. A partir do momento que existe uma coleta eficiente, cai a quantidade de lixo que vai para o aterro, o que diminui a operação de custos. O desperdício que ocorre hoje acaba onerando a operação no aterro. Além disso, muito lixo reciclável vai parar nas ruas e com a chuva isso é arrastado para os rios.

Em razão do baixo índice, o país precisa importar resíduos para abastecer a indústria nacional de recliclagem. Como reverter essa realidade?
Precisa haver um trabalho mais sério de conscientização. Muitas vezes a indústria não consegue aproveitar o material porque ele não chega em boa qualidade. Apesar de Londrina ter um índice de coleta melhor do que o restante do país, ainda vai muito lixo reciclável para o aterro. O Brasil precisa implantar um sistema de coleta seletiva, adotar políticas públicas para dar uma diretriz para as pessoas e as indústrias precisam entrar na logística reversa (pensar em todo o ciclo de vida do produto), o que significa uma redução de custo e uma consciência ambiental.

Outra dificuldade encontrada é a destinação do lixo orgânico e a incapacidade dos aterros para armazenar o chorume. Quais as alternativas para resolver o problema?
O chorume tem que ter tratamento. Ele é problemático quando se mistura com outras coisas. Agora, se é misturado somente com resíduo orgânico não tem problema porque é possível fazer um composto que deve ter um acompanhamento adequado. O chorume é um componente tóxico, pois pode conter de tudo.

E a questão da lotação dos aterros, como resolver?
A produção de lixo é muito grande. O brasileiro gera em média 800 gramas de lixo por dia e o nosso padrão de consumo está aumentando. Nós estamos em um ciclo vicioso de consumo. Para satisfazer o que? Os eletrodomésticos já não duram tanto. Tudo isso contribui para a questão da lotação. Também tem a questão de gerenciamento de resíduos nos municípios para separar corretamente o lixo.

Como é a destinação do lixo tóxico e hospitalar no Brasil?
É um dos maiores problemas ambientais do país. Falta informação e conscientização. Existem resoluções específicas para os resíduos de saúde que determinam que todo estabelecimento de saúde tem que dar uma destinação adequada ao seu lixo. Estão incluídas as clínicas médicas, veterinárias, odontológicas e até laboratório de tatuagem.






SAIBA MAIS

Os resíduos sólidos coletados no Brasil têm a seguinte destinação:

* 47% - aterros sanitários;
* 23,3% - aterros controlados;
* 30,5% - lixões;
* 0,4% - compostagem;
* 0,1% - triagem

Você sabia?

* O país gera mais de 157 mil toneladas de lixo domiciliar por dia;
* 20% da população não conta com serviços regulares de coleta;
* Os resíduos sólidos são classificados em:
- Perigosos: os que apresentam riscos ao meio ambiente ou à saúde pública;
- Inertes: que não se degradam ou não se decompõem quando dispostos ao solo.
- Não inertes: os resíduos que têm as características do lixo doméstico;

Fonte: Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

mockup