No dia 8 de março quero uma rosa vermelha para enfeitar meus cabelos e me deixar mais faceira. Uma rosa que perfume minha feminilidade, que me inspire a descobrir, nos confins da humanidade, o porquê de minha essência, e os mistérios que abrigo ao conter maternidade.
E neste dia que é meu, que me deram de presente, quero um vestido rendado, todo branco, imaculado, onde possa colocar, entre frisos e babados, a rosa vermelha orvalhada, das lágrimas de outras mulheres que nunca foram felizes. Quem sabe assim eu pudesse resgatar-lhes a alegria.
Ah! Neste dia, que é das Marias, de todo jeito e feitio, umas pobres, outras ricas, outras brancas de luar, outras tisnadas de ébano e aquelas orientais com seus olhinhos de amêndoa assim puxados para trás, não quero nem discursos, nem palestras, nem queixumes, nem lamúrias, nem cantilenas, nem nada que seja falso, mesmo que seja um poema.
Só quero meu alvo vestido, a minha rosa vermelha, e quero descer a ladeira de outros séculos passados. Olhar nas brumas distantes, afastar véus e cortinas, e me entrever sinhazinha na casa colonial, de chão de tábuas corridas, de janelas de treliça por onde a rua espiasse e logo reconhecesse o trajeto tricotado com os novelos da história das mulheres brasileiras.
Na verdade, muito espiei a partir daquele quadrado, tão restrito e acanhado, mas do qual eu avistava um divertido planeta, de onde um dia viria, de maneira infalível, e num cavalo montado, o meu príncipe encantado, o namorado escolhido e por meus pais adotado.
Agora me vejo senhora, tenho um senhor meu marido, que me deram aos 13 anos, e me valeu sobrenome e muitos filhos bonitos, que nem me deram trabalho, porque Quitéria cuidou, deu seu leite, seu amor, enquanto eu ficava na rede me abanando de calor, engordando com os doces que me trazia Quitéria, e pensando no domingo.
Domingo, que belo dia! É dia de sair, é dia do passeio esperado, de ver o mundo lá fora, o sol brilhando no espaço e me esquentando por dentro do espartilho apertado. De ir à missa bem cedo, de ouvir no campanário a melodia dos sinos. E de me jogar de joelhos nos degraus do confessionário. Que coisa melhor pode ser essa, de poder contar meus mistérios ao bom Padre Eleotério? Nem tanto por meus pecados, que não são tão graves, mas sim de conseguir desabafar, pois o senhor meu marido anda para lá de esquisito. Vira e mexe aparece com um novo afilhado. E esses meninos morenos, que brincam com meus lourinhos, pondo toda a casa-grande em tremendo burburinho, de onde brotam, meu Padre? Que fazer com essa minha ingenuidade?
‘‘Faz nada não, minha filha. Isso é assunto de homem. Cuide de seus afazeres. Reze mais três rosários. Deus quis homem e mulher em destinos separados. O que o homem pode fazer, nunca pense em repetir nem em seus sonhos sonhados, porque fazendo você, Deus considera pecado.’’
Agora venho de volta, nesta ladeira do tempo, subindo por cada século, sempre com a rosa vermelha, e meu vestido rendado que arrasta pelo chão seus bordados delicados. A paisagem mudou. Vejo fábricas, lojas escritórios, lugares a fervilhar e onde posso trabalhar, se assim tiver vontade e o marido deixar. Vou a festas e teatros, além, é claro, da Igreja, onde rezo para Maria, nossa rainha e padroeira. E a ela pergunto em vão: ‘‘Por que, minha Mãe, por que, ainda não veio permissão para a mulher receber bem mais alta educação?’’
E a Santa a sorrir, parecia me dizer: ‘‘Espera, minha filha, espera, que essas coisas hão de vir, mas nada vai lhe ser dado, é preciso conquistar, é necessário querer, e sempre se paga um preço por aquilo a receber. Além do mais, dobrará sua responsabilidade, e muito cuidado como o que chamam de liberdade. Se dela não fizer bom uso, virá a liberalidade, e isso jamais trouxe ao mundo a sonhada felicidade.’’
Eis-me agora retornada das ladeiras da vida ao ponto de minha partida. Reparo, então, em coisas que antes não reparava. Há diplomas conquistados no universo feminino. E quantas mulheres vejo em cargos dos mais elevados. Por todas as partes estão, pois muito se obteve com trabalho e educação. Conquista, é bem verdade, que fez redobrar tarefas, entre a chefia da empresa e as lides do fogão.
Outras dão continuidade apenas à tradição, e ainda espiam o mundo das janelas de treliça. Esperam pelo domingo e o dia da procissão. Desconfiam do marido, se ele chega atrasado.
E existem muitas daquelas, que em nome da liberdade, trazida por novos tempos, apenas se aviltaram e mais se coisificaram, sem perceber as coitadas, que liberdade é uma coisa que deve ser bem usada. Que não se encontra quando os lares são desfeitos, quando apenas se cultua a parte material, acentuada em corpos assim cada vez mais perfeitos, que em público se apresentam como gado em exposição.
Tampouco há liberdade no tolo palavreado, cavado sobre o abismo do machismo e do feminismo. Nem na falta de cavalheirismo, ou mesmo de romantismo, tidos como obsoletos, mas cuja falta frusta e embrutece relações de pura animalidade, e não de humanidade brotada das emoções.
No dia 8 de março quero uma rosa vermelha. Quero um vestido branco e rendado, que arraste pelo chão. E quero muito respeito. Afinal, a própria terra é uma deusa-mãe.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, professora universitária e escritora em Londrina
E-mail: [email protected]

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