Queremos avaliação de verdade - Ricardo Cappelli
Queremos avaliação de verdade
Ricardo Cappelli
A União Nacional dos Estudantes discorda do provão aplicado aos formandos de dez cursos universitários neste dia 7 de junho, porque ele é uma farsa com a qual o MEC pretende, em quatro ou cinco horas, fazer surgir uma nova escola. O exame só testa conhecimentos básicos e teóricos, não a formação do aluno sem preparo para resolver problemas relativos à profissão, muito menos sua capacidade de interação com a comunidade em que vai trabalhar.
O exame crucifica os estudantes por eventuais falhas do ensino superior e é uma ameaça ao futuro profissional de cada formando, porque, embora o ministro Paulo Renato diga ao contrário, as notas vão ser usadas pelas empresas na hora da contratação. Se os resultados não tivessem importância e se o exame fosse apenas para avaliar a universidade, não precisaria a chance de o formando repetir a prova para melhorar a nota. Além do mais, o ministro faz chantagem com o formando ao reter seu diploma se ele não fizer a prova.
O provão não vai melhorar a qualidade de boa parte do ensino superior, que vive uma abertura indiscriminada das fábricas de diplomas universitários. Por que não se faz uma avaliação global? Que inclua os professores, os currículos, condições de estudo e ensino, bibliotecas, laboratórios, existência e eficácia de pesquisa, qualidade dos serviços de extensão... Isso não interessa ao governo porque viria à tona a fragilidade de sua política educacional. Ele prefere avaliar todo o sistema universitário pelo fim da linha. Sobrou para os estudantes, que, em poucas horas, terão de demonstrar o que aprenderam em quatro, cinco ou seis anos de faculdade e durante os quais já fizeram dezenas de provas, seminários, estágios, monografias etc.
Entre as consequências do exame, a mais visível e lamentável é a indústria de cursinhos pré-provão. Muitas faculdades direcionaram suas aulas para afinar os alunos com as questões da prova, realizam simulados parecidos com os cursinhos pré-vestibulares. Ao invés de se dedicar ao trabalho de conclusão de curso, o formando agora tem que se preocupar com a nota do provão e os eventuais prejuízos que ela lhe causará no mercado de trabalho.
Outra consequência são as distorções na realidade do ensino, porque cursos de faculdades sem nenhuma estrutura obtiveram conceitos A ou B mas provas anteriores, acima de cursos como Direito, Administração e Engenharia da USP, por exemplo, a universidade que forma 50% dos doutores do país, produz pesquisa de alto nível e oferece uma infinidade de serviços à sociedade. A prova deste semestre terá uma distorção adicional. Por causa da greve - justa e legítima - nas universidades federais, milhares de formandos ficaram com as matérias defasadas e não poderão responder perguntas sobre assuntos que não estudaram. Mas ainda há o problema de ranking nas faculdades decorrente das médias das provas, que pode ser utilizado na distribuição de verbas públicas entre as instituições, conforme diretriz do Banco Mundial e como já ocorre no Chile. As faculdades com melhor desempenho recebem mais dinheiro e isso aumenta o abismo entre as boas e as ruins.
Em 1996 a UNE apresentou ao MEC um conjunto de medidas para uma avaliação completa do ensino superior, sugerindo avaliação interna e externa à universidade, para envolver a comunidade universitária e a sociedade à qual ela serve; adoção de critérios quantitativos - o que significa levar em sua titulação publicações e regime de trabalho dos professores - e qualitativos, para permitir que os alunos avaliem itens como assiduidade dos docentes, capacidade de exposição e interesse de matérias; participação da sociedade, para absorver as experiências de conselhos profissionais e de instituições de pesquisa como o CNPq e a Capes; respeito à autonomia e à vocação das universidades, para que cada instituição se oriente tanto pelos critérios científicos mais avançados quanto pelas demandas de sua região; avaliação construtiva, o que significa que as universidades das regiões menos favorecidas economicamente precisam ser estimuladas a contribuir com o desenvolvimento social, mesmo que de início elas obtenham baixos conceitos, para evitar favorecimentos oficiais àquelas que já são reconhecidas pela excelência do ensino, da pesquisa e da extensão que oferecem. Não temos medo de avaliação, apenas queremos que o governo faça a coisa certa.
- RICARDO CAPPELI é presidente da União Nacional dos Estudantes - UNE





