Quem tomou, tomou, que não tomou... - Paulo Sérgio de Faria
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de julho de 1998
Paulo Sérgio de Faria 
Quem tomou, tomou. Quem não tomou tem que tomar... consciência de que o futebol empresarial não valoriza e muito menos considera a arte futebolística brasileira.
Que saudades temos do futebol jogado pelo significado de camisa, pelo amor à Pátria. Saudades de Pelé (em campo), Garrincha, Tostão, Didi, Carlos Alberto, Piazza, Félix e do amor pela camisa que eles demonstravam. Jogadores que honravam não só as vitórias, mas nossas lágrimas.
Depois que o Brasil se tornou exportador de craques de bola, o futebol perdeu a graça. E as lágrimas hoje derramadas pelo fracasso na final contra a França têm gosto de injúria, raiva, ao perceber o quanto muitos jogadores não estão nem um pouco preocupados em respeitar o carinho e a emoção dos mais de 150 milhões de brasileiros.
Como pode uma seleção que chega à final perder de 3 a 0? Um placar com uma diferença de um gol, ou até perder na morte súbita seria mais compreensível, respeitado e aceitável.
Dos titulares da Seleção, mais de 70% pertencem ao futebol do exterior. Que interesse eles teriam em nos trazer mais um título? Nem aqui eles moram! Têm futuro garantido, dinheiro no bolso. Para que arriscar uma perna segurada em US$ 50 milhões?
Por outro lado: seríamos capazes de mudar essa trajetória do esporte brasileiro que se tornou vício? Como fazer para que os bons jogadores permaneçam aqui no Brasil ou, ao menos, que eles não fizessem parte da equipe, quando optassem para jogar no exterior? Pois o que podemos observar é que grupos empresariais como a Rider e a Parmalat possuem mais poderes que o próprio responsável pela escalação do time. As pressões são tantas que o ponto referencial deixa de ser a Pátria.
Quando tivermos alguém de coragem, que tome a decisão de formar a equipe para uma copa com jogadores residentes no Brasil, a situação certamente vai mudar. E, quem sabe, a camisa possa ter maior peso do que os dólares estrangeiros.
O incentivo ao esporte por parte dos governantes também é fundamental. E por que não direcionar parte do rendimento dos atletas para o desenvolvimento do esporte no Brasil? Todo competidor brasileiro deveria ter a mesma sensibilidade do jogador alemão que doou para o Projeto Axé parte dos seus rendimentos adquiridos na competição. E que parte dos prêmios ganhos pelos competidores brasileiros, independentemente do tipo, fossem direcionados ao desenvolvimento do esporte geral. E de modo especial às regiões mais carentes.
Esse certamente será o Dia D para o futebol do Brasil. Aí, os brasileiros hão de receber os jogadores com muita batucada e alegria, independentemente do resultado, na certeza de que eles honraram a camisa e o amor que cada brasileiro tem pela Pátria e pela arte futebolística. Tomou?
- PAULO SÉRGIO DE FARIA é professor em Curitiba


