Quem tem medo do Lobo Mau?
Vergonhosa a atuação da Câmara de Vereadores de Londrina no último sábado. Parece a estória dos Três Porquinhos, que cantavam constantemente a música que intitula esse artigo até que o Lobo Mau aparecesse de verdade e mostrasse seu sopro devastador das casas mais fracas. A estória em questão merece ser imediatamente reformulada para: Os 12 Porquinhos.
O que fizeram nossos vereadores foi o mesmo que não julgar um crime de assassinato em função do bandido já estar preso por um pequeno furto. E com o agravante de que o prefeito cassado não era o único envolvido no processo. Tínhamos ainda outras pessoas, algumas das quais tive a oportunidade de ver no noticiário que informava tudo.
O nosso povo de Londrina, trabalhador e construtor do progresso exige de uma vez por todas que o destino de seu dinheiro subtraído dos cofres públicos seja apurado com rigor até o último centavo, pois enquanto ele não aparecer, estaremos vendo nossos filhos sem acesso a saúde, educação e lançados a um futuro incerto e perigoso, enquanto uns poucos se regozijam, esbanjando fortunas em suas fazendas, chácaras, automóveis importados e casas de praia.
Nossos vereadores não puderam, não souberam, ou pior, não quiseram evitar uma das marcas mais famosas das CP e CPIs a prorrogação da impunidade com a varredura de todas as sujeiras para debaixo do tapete. E tudo acabando em pizza! Era necessário naquele momento que se consultasse o povo em relação a seu desejo de ver ou não a apuração total dos fatos que marcaram nossa sociedade nos últimos meses.
Acreditar que a mera existência da norma seja, por si só, a solução de problemas políticos, econômicos ou sociais, é um tipo de ingenuidade que vem sobrevivendo por gerações. Na votação do último sábado, os senhores vereadores de Londrina não se preocuparam em distinguir seu interesse particular do interesse público, objeto de sua representação no mandato e que obriga a eles a prestação de contas ao povo, seu eleitor e mandante e não ao prefeito cassado.
Lamenta-se, a propósito, que o desejo dos cidadãos não haja logrado ampla utilização das ações populares entre nós, como seria de se esperar de tão nobre instrumento de controle do povo. Concordo. Falta, por certo, o hábito de controle exercido pelo povo, que é uma aquisição cultural, mas, por outro lado, o que foi feito pela Câmara de Vereadores de Londrina está muito longe de conferir a precisão técnica que devem ter os institutos jurídicos, mormente quando introduzem temas novos, como seria essa tutela dos interesses difusos.
A batalha jurídica em torno da apuração dos fatos sobre o dinheiro público desviado trouxe à tona, mais uma vez, um dos maiores pesadelos no dia-a-dia dos brasileiros: a lentidão dos processos em qualquer área, seja jurídica ou em comissões processantes. Nossos parlamentares brincaram de julgar, intimidando-se diante das ameaças do prefeito cassado em revelar ao povo os sopros de Lobo Mau que derrubariam todas as casas construídas de frágil material pelos nossos vereadores.
Como onde há fumaça há fogo, espero que nas próximas eleições de outubro nossa sociedade lembre-se desses que votaram contra seus anseios e dê-lhes o troco com o repúdio a seus nomes nas urnas.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas, professor universitário, consultor e conselheiro de empresas em Londrina
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