Sempre defendi, baseada em leituras e observações pessoais, que a essência do poder político nunca muda. E é assim, provavelmente, desde que surgiu no planeta o bicho homem. Com isso não quero absolutamente dizer que as sociedades são estáticas. Pelo contrário, costumes, comportamentos, valores variam constantemente no tempo. Também as características populacionais e geográficas, as taxas de mortalidade e fecundidade e outras mais, sofrem mudanças, porque tudo nesta vida é dinâmico. Entretanto, o que afirmo diz respeito à constância de determinados comportamentos e ações ligados à política, e desse modo penso que só se alteram as doses de intriga, traição, personalismo e ambição desmedida, através das épocas e sociedades, e sob a capa das formas de governo ou tipos de Estado.
O assunto aqui levantado tem a ver no momento com a questão da reeleição presidencial. E diante do festival de ambições e traições, prodigalizado sobretudo pelo PMDB, seguido com ardor pelo PT, PPB, PDT e PC do B, fico a imaginar se os sentimentos do presidente Fernando Henrique não seriam parecidos neste instante com os do grande governante de Florença, Lourenço de Medici, o Magnífico. Isso porque a necessidade que este sentiu de multiplicar as demonstrações e as advertências para convencer seus próprios partidários lhe inspiriou a escrever uma carta datada de 1485, cujo final conclui que ‘‘a afeição e a fidelidade de seus amigos não duravam a partir do momento em que ele se afastava mais de 16 quilômetros de Florença’’.
Portanto, se Florença e o Brasil, Lourenço de Medici e Fernando Henrique se distanciam no tempo e no espaço com suas pecularidades, a essência do poder é a mesma, podendo unir os dois governantes através de sentimentos comuns.
A confusão entre aquilo que muda e o que não muda tem aparecido, aliás, no recente modismo de comparar o governo do presidente Juscelino Kubitschek com o de Fernando Henrique Cardoso, sendo considerada como brilhante análise a conclusão óbvia de que o Brasil em que JK viveu há 35 era diferente do Brasil de Fernando Henrique, e que por isso os dois presidentes nada têm em comum na forma de governar. Para embasar suas convicções, certos intelectuais apontam vários índices econômicos e sociais, demonstrando que no país do presidente JK as mulheres tinham mais filhos, havia muito mais analfabetos e que podíamos de fato ser considerados a maior Nação católica do mundo. Também se aponta como prova irrefutável de diferença o fato de que os governos dos dois presidentes tiveram circunstâncias diversas.

Mais uma vez o
Congresso se transforma
num dique contra as
reformas necessárias

Mesmo se há tanta discussão sobre o tema é porque se pressente que um elo liga esses dois governantes. Na verdade, pode-se dizer que para além da personalidade carismática e afável muito parecida, os dois podem ser classificados como raros estadistas que intentaram mudar o Brasil com arrojo e determinação. De fato, Juscelino mudou, o Fernando Henrique está mudando o país. Sobre o primeiro dirá meu ex-professor, o historiador Francisco Iglésias: ‘‘Nunca um chefe marcará o país com tamanha lista de realizações, despertando o otimismo e instrumento a quase plenitude democrática pelo exercício incontestável da tolerância’’. Sobre o segundo afirmou o sociólogo francês Alain Touraine: ‘‘Cardoso é o único homem de Estado de todo o continente capaz de associar com força estabilidade econômica e luta contra as desigualdades sociais’’.
Acontece que romper com as estruturas que sustentam a mentalidade do atraso pode ser muito perigoso. Juscelino pagou seu preço. Sua entrada na presidência foi rodeada pelo clima de golpe. No poder enfrentou as ligas camponesas, os sem-terra da época. E foi taxado pelos nacionalistas estridentes de traidor e vendido aos interesses estrangeiros, porque ainda não se usava o termo neoliberal como xingamento.
Fernando Henrique também já está pagando por sua competência. Mais uma vez na história o Congresso Nacional se transforma num dique contra as reformas necessárias, e a tese da reeleição, que se aprovada traria a chance da consolidação das medidas do governo, possibilitando a continuidade da estabilização, do crescimento econômico, da diminuição da distância entre ricos e pobres, da prosperidade, enfim de todos os brasileiros, está ameaçada. Ela esbarra não na vontade do povo, mas no desejo do PMDB de ter as presidências da Câmara e do Senado. Na ambição desmedida de Lula, eterno candidato de propostas vazias. Nos devaneios de Itamar Franco e de José Sarney, dois dos piores presidentes que o Brasil já teve. Na vaidade e teimosia de Maluf, que dada sua situação de saúde talvez encare a próxima eleição presidencial como sua derradeira chance de chegar ao poder mais alto da República. No nacionalismo ultrapassado do caudilho Brizola. Estes e outros têm medo de perder para Fernando Henrique, e em nome de seus interesses pessoais de tudo farão para impedir a aprovação da reeleição. Tudo igual em essência como no passado. Que se recorde Lourenço de Medici.

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