Mirian Goldenberg, escritora: "A geração que está envelhecendo hoje é a mesma que fez a revolução comportamental nos anos 1960. Está inventando uma nova forma de ser velho"
Mirian Goldenberg, escritora: "A geração que está envelhecendo hoje é a mesma que fez a revolução comportamental nos anos 1960. Está inventando uma nova forma de ser velho" | Foto: Wallace Cardia/Divulgação

Xuxa e Madonna. Ícones de beleza, chegaram ao auge do sucesso nos anos 1980 e acumularam fortunas consideráveis. A Rainha dos Baixinhos e a Rainha do Pop influenciaram toda uma geração, desafiaram conceitos e quebraram paradigmas. Agora, aos 56 e 60 anos respectivamente, enfrentam um dilema semelhante: críticas por estarem envelhecendo e a forma como lidam com isso.

Avessa aos tratamentos estéticos mais invasivos – aos quais seu corpo não responderia bem -, Xuxa tem causado a ira de seguidores que não se acanham em criticá-la pela falta de maquiagem, pelo cabelo curto e pelas rugas, entre outros quesitos. Já Madonna, apesar do sucesso do seu recém-lançado álbum "Madame-X" que a colocou pela nona vez no topo da lista Billboard 200, também não escapa das críticas por conta da idade. A cantora chegou a declarar que está sendo punida por ter completado 60 anos e que se fosse um homem esses comentários não existiriam.

Independentemente da forma como ambas têm lidado com a questão, o fato é que as mulheres sofrem mais cobranças em relação aos homens quando envelhecem. O que vestem, com quem se relacionam, o que fazem, como cortam o cabelo, como lidam com o corpo, tudo é minuciosamente analisado e julgado.

Com diversas obras sobre o envelhecimento, a professora e antropóloga Mirian Goldenberg explica que esta é uma questão que afeta sobretudo as brasileiras, que vivem em uma cultura que valoriza o corpo jovem e sensual. Para seu último livro: “Liberdade, felicidade e foda-se!”, publicado pela Editora Planeta, ela realizou uma pesquisa com mais de cinco mil homens e mulheres de 18 a 98 anos e relata diversos casos de como as pessoas lidam com o envelhecimento, inclusive ela própria. “Sempre tive projetos que não passavam pela aparência mas mesmo assim tive uma crise aos 40 anos em função das pressões dos dermatologistas, das amigas. Sofri um pouquinho até que comecei a escrever e a pesquisar sobre envelhecimento e felicidade. Meu novo livro é resultado do meu projeto de vida de viver a minha própria velhice com mais liberdade e com muito mais felicidade.”

As mulheres têm medo de envelhecer? Por que?

As mulheres brasileiras têm muito medo de envelhecer, em outras culturas não é assim, eu pesquisei mulheres alemãs e elas nem falam em envelhecimento. Aqui, antes dos 30 (anos), as meninas já estão muito preocupadas com o envelhecimento, muitas já estão colocando Botox, fazendo cirurgia. Aqui nós envelhecemos muito cedo, psicologicamente e culturalmente. O medo é muito associado à perda do capital físico, do corpo como capital, como eu falo em vários estudos, do corpo jovem, do corpo magro, do corpo sensual, do corpo bonito. As mulheres têm pânico de envelhecer porque têm medo dessa perda de capital físico e ao mesmo tempo, medo da invisibilidade social porque as mulheres brasileiras são destinadas e sofrem muito com o tipo de invisibilidade que ocorre muito precocemente. A partir dos 40 elas já são consideradas velhas, às vezes até antes. Então é por isso, é um medo que é resultado de uma cultura que valoriza extremamente o corpo jovem, sensual, em forma, das mulheres.

Muitas vezes são as próprias mulheres que pressionam umas às outras para não parecerem velhas, ou que criticam quem não busca tratamentos estéticos. A que a senhora atribui esse comportamento?

As mulheres pressionam porque elas são pressionadas. Está introjetado em cada uma de nós essa necessidade de ser jovem, de ser magra, de ser bonita, de se cuidar. É uma cultura que pressiona muito, de diferentes formas, a mulher brasileira a ser sempre jovem, bonita, cuidada. Eu passei alguns meses na Alemanha e tive a maior dificuldade de encontrar um salão de beleza para fazer as unhas, pintar o cabelo, aqui em cada esquina você encontra um, dois salões. Porque aqui o corpo da mulher é considerado um capital e ela deve investir muito nesse corpo. Quando ela não investe ela é considerada culpada por estar envelhecendo, por estar gorda, por não estar cuidando da sua pele, do seu cabelo, como deveria. Existe uma pressão, não das mulheres, mas da cultura que é introjetada pelas mulheres que reproduzem essa pressão na relação com outras mulheres.

Em recente entrevista, Madonna atribuiu parte das críticas que recebeu por sua idade ao fato de ainda "ter apetite sexual, se divertir e ainda se sentir viva". A senhora concorda?

Culturalmente, uma mulher que envelhece não pode ter sensualidade, não pode namorar, não pode transar, não pode beijar na boca, eu já escrevi muito sobre isso. Até de um caso de um Carnaval, eu beijei meu marido na boca aqui no meio do Rio de Janeiro, em pleno Carnaval, meu marido de cabelo branco e fui cercada por jovens que bateram palma, brincaram 'ah, está melhor que a gente', como se uma pessoa mais velha - eu não era nem tão velha, estava com uns 50 anos ou até menos -, não beijasse na boca do seu marido, fosse algo meio inesperado, às vezes até ridículo. É muito difícil você ter desejos e assumir esses desejos, nessa fase da vida, porque a cultura acredita que uma pessoa mais velha está aposentada de tudo, inclusive da sua sensualidade, do seu desejo.

Quais as diferenças do processo de envelhecimento para homens e mulheres?

Existem inúmeras diferenças entre homens e mulheres. Primeiro que eles não expressam tanto o medo de envelhecer e o medo deles está muito mais relacionado à aposentadoria, à impotência e à dependência física, enquanto elas falam muito mais da aparência e da invisibilidade social. Outro medo que elas têm é do que elas podem ou não podem usar depois que envelhecem: pode usar cabelo comprido, pode usar franja, pode usar biquíni, pode usar shorts? Eles não têm esse tipo de medo porque continuam usando o que sempre usaram, e nem se preocupam com isso. Outra questão que aparece muito é o fato delas falarem que elas vão se cuidar na velhice, ou então suas amigas que vão cuidar delas. Os homens falam que quem vai cuidar deles é a esposa, as filhas e as netas. Quem cuida, em todas as fases da vida, inclusive na velhice, são as mulheres. Elas são muito mais cobradas com relação à aparência e a comportamentos, inclusive suas escolhas sexuais e amorosas, e eles não, eles são mais livres. Existem inúmeras diferenças mas a principal é que elas falam muito mais de liberdade quando envelhecem, que elas conquistam a liberdade de serem elas mesmas, de serem mais livres, de serem mais felizes. Dizem muitas que é o melhor momento de suas vidas, enquanto eles falam mais da família, do afeto, dos filhos, da casa. Essa é uma diferença muito grande no envelhecimento.

A senhora vê o autoconhecimento como um caminho para as mulheres encararem o envelhecimento de forma mais equilibrada?

Hoje nós estamos em um movimento muito positivo de as mulheres se informarem muito mais, se libertarem muito mais, e quererem inventar a própria velhice. Eu chamo de “bela velhice” porque a geração que está envelhecendo hoje é a mesma geração que fez a revolução comportamental nos anos 1960. Está inventando uma nova forma de ser velho, muito mais livre, sem etiquetas, sem rótulos. Isto está sendo muito positivo e estamos vendo muitos exemplos de mulheres que estão envelhecendo com muito mais liberdade e muito mais felicidade.

Quem teve a beleza em evidência na juventude sofre mais com a pressão da sociedade em relação ao envelhecimento?

Quem sempre teve o corpo como seu principal capital, corpo jovem, magro, bonito, sofre muito mais com o envelhecimento porque vai perder, mesmo com todos os procedimentos - e as brasileiras são campeãs nesses procedimentos estéticos -, o corpo como capital. Aquelas que podem até ser bonitas, magras, mas não se preocuparam tanto com seu corpo e criaram projetos de vida mais significativos conseguem envelhecer com mais tranquilidade. Eu acho que a grande chave é você ter projetos e não querer se congelar em uma juventude que cedo ou tarde não vai mais existir.

Em seu mais recente livro a senhora diz que sua escolha pessoal foi de investir tempo, dinheiro e energia em projetos de vida, e não no sofrimento pelas transformações inevitáveis do corpo. Foi muito difícil chegar à essa decisão, frente à pressão da sociedade?

Na verdade meus projetos de vida sempre foram associados ao estudo, ao trabalho, à pesquisa, à escrita. Desde cedo, muito cedo, minha vida sempre foi voltada para esse tipo de projeto que realizo plenamente agora. Digo que tenho 93 anos porque só vivo e curto e só tenho amigos com mais de 90 anos. Hoje me tornei uma nonagenária de tanto que eu amo o que eu faço. Sempre tive projetos que não passavam pela aparência, mas mesmo assim tive uma crise aos 40 anos que conto no meu novo livro em função das pressões dos dermatologistas, das amigas. Sofri um pouquinho, pelo menos durante um ano, em função dessas pressões até que eu comecei a escrever e a pesquisar sobre envelhecimento e felicidade. Meu novo livro é resultado do meu projeto de vida de viver a minha própria velhice com mais liberdade e com muito mais felicidade.

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