Quem tem medo da Alca? - Maria Lúcia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de outubro de 1997
Maria Lúcia Victor Barbosa 
Depois da visita do Santo papa, precisávamos do avesso da santidade, e nada melhor do que a figura de um presidente norte-americano para ser satanizada. Aparentemente, tudo começou com o relatório da Embaixada dos Estados Unidos onde constava: a corrupção no Brasil é endêmica, o que apontava para uma verdade que todo brasileiro conhece muito bem. Provavelmente, o documento era confidencial, ou restrito aos empresários norte-americanos, porém, veio à tona e, imediatamente, houve uma abespinhação geral que não se limitou apenas a esquerda jurássica, mas se alastrou em forma de repúdio popular, encharcando de brios ufanistas.
No rastro da comoção, a imprensa aproveitou para por mais lenha na fogueira do antiamericanismo, e passou a enfatizar os métodos de segurança que normalmente cercam a visita de presidentes. E todos diziam indignados: Ah! Oh! Que absurdo! Que antipatia! Logo apareceu dando entrevista na televisão , Dona Neuma, da Mangueira, que discursando em tons de revolta verde-amarela, concitou o presidente Bill Clinton a ficar por lá mesmo, na sua terra. Era guerra Rio-Estados Unidos, empolgando do governador queixoso ao povo ressabiado.
E a patriotada continuou de vento em popa em Brasília, com congressistas e funcionários furiosos (note-se que Brasília é um lugar onde nunca sequer se pronunciou a palavra nefanda: corrupção ) e o governador negando-se a passar pela revista do ultrajante detector de metais, o que ele afirmou diante das câmeras de televisão, com o rosto impávido, o peito estufado e de olhos nos votos da próxima eleição. Afinal, estava se inserindo na onda antiamericanista tão popular, e que foi povoada de piadas e brincadeiras de mau gosto, tudo devidamente levado ao público pela televisão. Essas coisas devem ter enchido de alegria o coração socialista de presidentes de sindicatos, políticos e militantes de partidos de esquerda, alguns dos quais, como gatos pingados, fizeram pífias manifestações. Uma coisa entre o ridículo e o cômico, em que pese ter sido um triste espetáculo de nossa endêmica mentalidade do atraso.
E enquanto as elites políticas, empresariais e intelectuais torciam o nariz, esperando a destruição iminente do Mercosul, até o presidente Fernando Henrique, normalmente afável, exibiu uma carranca enfezada ao discursar ao lado do presidente Clinton, o qual fez um discurso descontraído, ameno, aludindo, inclusive, à música popular brasileira.
Ao final de sua visita, Bill Clinton havia dado um show de simpatia. E o povo, que nunca foi imune ao poder face a face, rendeu-se ao carisma do presidente norte-americano. Na Mangueira, Dona Neuma condescendeu: Ele vai dizer, quando voltar aos Estados Unidos, que somos legais. O povo gosta dele. Dona Zica, viúva de Cartola, foi mais poética: Clinton foi recebido pela Mangueira de braços abertos, como se fosse pelo Cristo Redentor. Wesley da Silva, mestre de bateria da Escola de Samba Mangueira, que também havia se insurgido contras as exigências da segurança, que classificara de frescura, entregou seu tamborim a Clinton e admitiu: Mudei de idéia ele é muito simpático.
O presidente Clinton conquistou facilmente o coração do povo. E foi aplaudido de pé por 1.200 pessoas que escutaram seu discurso no Memorial da América Latina, em São Paulo. Mas como fica, então, a alcafobia? A respeito da criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), verdadeiro motivo da visita do presidente Clinton, o qual se tem pressa em resolver o assunto, enquanto ao Brasil interessa adiar enquanto puder a opinião de alguns empresários expressa temores e cautelas, além do latente antiamericanismo que, na verdade, traduz antigo complexo de inferioridade, existente, aliás, em toda América Latina. Possivelmente esses empresários discordam do professor José Guilherme Guilhon de Albuquerque, que equacionou corretamente a questão em poucas palavras quando alertou sobre o erro de dizer-se: já que não podemos competir com os Estados Unidos, não vamos competir. O certo seria: não temos condições de competir, logo, vamos ter de adquiri-las.
O relacionamento com os Estados Unidos, porém, é complexo, pois como explicam os autores do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, o antiyanquismo latino-americano flui de quatro origens diferentes: a cultural, ancorada na velha tradição hispano-católica (no nosso caso, luso-católica); a econômica, consequência de uma visão nacionalista ou marxista das relações comerciais e financeiras entre o império e as colônias; o histórico, derivado dos conflitos armados entre Washington e seus vizinhos do sul (o que não é nosso caso), e o psicológico, produto de uma malsã mescla de admiração e rancor que submerge suas raízes num dos piores componentes da natureza humana: a inveja.
Na verdade, enquanto a América Latina não alcançar o equilíbrio na sua atitude, que sempre oscilou entre a subserviência e o ufanismo, não chegará a maturidade tão necessária no relacionamento com os Estados Unidos.


