Quem tem carisma?
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de outubro de 2001
Gaudêncio Torquato 
Um dos conceitos mais polêmicos na política é o do carisma. Quem é carismático na política brasileira? Há algum político, em especial, que possa ser considerado um modelo carismático? Essa resposta deve ficar com o leitor. Para ajudá-lo, tentarei esboçar algumas características que integram o perfil dos carismáticos, não antes de lembrar que, nas últimas décadas, a política passou a ser gerida como um empreendimento negocial, submetida a modelos de gestão e a técnicas de planejamento, que acabam eliminando a seiva da esplendorosa Árvore do Carisma, onde floresciam flores e frutos regados com o calor da sensibilidade e da intuição.
Há um brilho especial nos atores que emanam carisma. Um brilho que pode ser o foco do olho, o esgar da expressão ocular, o modo de gesticulação, a fala - mansa ou apressada - os trejeitos, a maneira de vestir, o tom expressivo, o teor do discurso, a composição visual, ou algumas destas partes conjugadas e, ainda, todas elas juntas, integrando o conjunto semântico (substância discursiva) ao conjunto estético (substância icônica, visual). Os perfis carismáticos imbricam, de forma harmoniosa, forma e conteúdo. E, sobretudo, transmitem uma imagem de espontaneidade, que difere, substancialmente, dos modelos retocados pelo marketing exacerbado.
Percebe-se uma figura carismática, quando ela chama a atenção pela maneira como se apresenta e fala. De repente, cria-se entre ela e os receptores (assistentes, ouvintes, telespectadores), uma empatia, que é um fenômeno além da simpatia. Nos processos empáticos, a fonte expressa a capacidade de ingressar na maquinaria de pensamento e interpretação do receptor, de forma tão intensa, que este não apenas entende tudo que é exposto, mas aceita as mensagens introjetadas. Gera-se um circuito de interesses recíprocos entre fonte e interlocutor a ponto de se considerarem ''amigos de longa data, velhos conhecidos'', por mais que eles tenham se conhecido há poucos minutos. A pessoa carismática cria a seu redor círculos de energia, atraindo pequenos grupos e platéias. É ouvida, respeitada, amada ou, até, odiada. Mas não passa em brancas nuvens como a maior parte das pessoas.
Jesus Cristo, Buda, Maomé, Ghandi são exemplos de figuras carismáticas da história. O Cristo que conhecemos chama a atenção pela barba, pelo discurso, pelas parábolas, pela história maravilhosa de seu nascimento e criação e, sobretudo, pelo calvário e sacrifício para salvar a humanidade. É uma história deslumbrante cercando uma imagem plena de virtudes. Ghandi encantava pelo despojamento, pobreza e sabedoria.
Mas há pessoas no catálogo do mal, que podem, também, ser consideradas carismáticas. Hitler é uma delas. Tratava-se de uma usina de surpresa, emoção, susto, empolgação, furor e identificação com valores de uma sociedade em ebulição (raça, poder, força, dominação). Já o presidente Kennedy encantava com o charme pessoal que irradiava juventude, poder, riqueza, fatores que confluíam para o sonho norte-americano da pátria-berço da prosperidade e bem-estar social.
Getúlio Vargas tinha carisma, a partir do jeito sulista de se expressar, do estilo de governar e das ações administrativas que descortinaram a política de massas. Mas é Juscelino Kubitschek, com seu sorriso aberto e cordial, o nosso carismático político por excelência. E, ainda para arrematar, JK era embalado pela modinha mineira ''como pode o peixe vivo viver fora d'água fria?''.
Jânio também tinha carisma. Os gestos, as palavras pronunciadas com os ''és'' fechados, a voz da autoridade firmada, reconhecida e respeitada, o jeito desabrido de ser, tudo em Jânio chamava a atenção. Jânio era uma incógnita. E Fernando Henrique? Não tem nenhum carisma. É um schollar, um intelectual orgânico, preparado, um exemplar da mais racional estirpe weberiana (de Max Weber, o alemão que estabeleceu os princípios determinantes da legitimidade, quando analisou o fenômeno da burocracia).
E, nesse ponto, cabe indagar: Lula tem carisma? Itamar tem mais carisma que Lula? Brizola, por exemplo, pode não ter mais voto, porém conserva certa dose de carisma, expresso na maneira de falar, na gesticulação, nas pausas e ênfases e até na figura emblemática que teve participação contundente em determinado período da vida brasileira. Miguel Arraes tem carisma e os pernambucanos sabem disso. Por que é interessante analisar os perfis carismáticos? Porque, entre outras coisas, numa reta final de campanha, quando dois candidatos estiverem disputando a vitória por uma questão de meio palmo, aquele que tiver carisma tem mais chances de ganhar. A conferir.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e consultor político
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