Quem perde e quem ganha com a crise de energia? O cidadão, claro, é quem mais perde. Afinal de contas, sairá do seu bolso ou do seu esforço a cota de sacrifícios para administrar a crise. As perdas serão distribuídas por todas as classes sociais, sendo também lógica a previsão de que os segmentos e setores produtivos que mais necessitem de energia, em seu cotidiano, terão as maiores perdas. A cadeia hoteleira e o setor de lazer, por exemplo. Do ponto de vista político, a perda maior será do governo. E se o núcleo tucano está no centro do poder, o PSDB é quem vai levar a pior.
Se a crise atravessar todo o segundo semestre e entrar em 2002, os tucanos devem dar adeus à cadeira do Planalto. José Serra, o provável candidato, poderá começar a descer do cavalo. Nesse caso, prevê-se os carros que formam o trem tenderão a deixar a locomotiva correndo sozinha e perdida. O PMDB poderá sair mais cedo, pois é o partido com a maior divisão conceitual. Hoje, metade quer ficar na oposição, metade no governo. Para sair do governo, há um complicador: abandonar os cargos. Este é o impasse, pois, em algumas regiões, como o Nordeste, o PMDB está acostumado a sentar nas costas do poder central. E há quem deseje figurar como vice numa chapa presidencial, como o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos.
Se o PMDB tem dificuldades, imagine-se o PFL. É muito difícil imaginar este partido afastado do coração do poder. Mais fácil é imaginar o sol deixar de aparecer no dia seguinte. Ocorre que o PFL não tem candidatos a presidente. ACM foi eliminado do páreo. Roseana Sarney não tem perfil adequado, ajustando-se, nela, o figurino de vice. Formaria, aliás, uma bela chapa. Maciel quer voltar a ser senador. Ou governador. Bornhausen tem perfil regional e hermético.
A crise beneficia o oposicionismo. E a oposição não é apenas o PT. Aliás, Itamar ganha mais com a crise do que Lula. Por isso mesmo, pode ser o candidato do PMDB. O aproveitamento da crise pelo PT vai parecer oportunismo. Já em Itamar, o discurso oposicionista tem um viés nacionalista, bem do gosto de amplos segmentos que denunciam a entrega de empresas brasileiras na bacia das almas. Algumas foram compradas com dinheiro financiado pelo BNDES.
Quem poderá crescer muito é Ciro Gomes. Seu perfil está entre o radical Lula e o intempestivo Itamar. Se souber conter a linguagem, trilhar uma linha de crítica com responsabilidade, vai ganhar o apoio de amplos setores das classes médias urbanas.
Mas não se pode garantir que está tudo perdido para os tucanos. Se Fernando Henrique despejar os bilhões que prometeu para a área social, se a crise da energia for equacionada em um prazo razoável, se José Serra conseguir abrir espaços de simpatia junto às lideranças de algumas regiões, como o Nordeste, se o PSDB permanecer unido, ou seja, com a firme determinação de Tasso de ancorar a candidatura do ministro da Saúde, restará esperança aos tucanos. O problema: o excesso de ‘‘se’’.
Não há, nesse momento, espaço para acerto. Só especulação. O que se sente é uma espetacular indignação da sociedade. A raiva beira por todos os lados. Há um sentimento de revolta contra as autoridades públicas. O poder político está desgastado. A corrupção escancarada pela mídia forma amplos bolsões de formação e irradiação de opinião e influência. A violência continua fazendo seus placares absurdos. O desemprego poderá aumentar com os apagões. A sobretaxa de energia vai aumentar o índice de revolta.
A questão torna-se, então, esta: quando esta maré vai se adensar e em que praia vai jogar suas ondas? Até setembro, os políticos precisam fazer sua opção partidária: continuar nos partidos em que estão ou mudar de rumo. Se a crise passar outubro, a debandada será geral e fatal. É o minuto final dos tucanos. Será um ‘‘salve-se quem puder’’.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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