Quem pariu a crise que pague por ela
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de fevereiro de 1999
Nelson Cardoso 
A Central de Movimentos Populares realizou uma significativa reunião no começo do mês de fevereiro, em São Paulo, para discutir a grave crise que afeta a Nação. Lideranças comunitárias de todo o País fizeram uma radiografia da crise e apontaram caminhos para superá-la que divergem radicalmente das medidas colocadas em prática pelo governo FHC com o mesmo objetivo. Mais do que isso: essas lideranças vêem no próprio governo a principal causa da crise.
De acordo com as avaliações da reunião, 99 dificilmente deixará de ser um ano de agravamento da crise social, econômica e política sem precedência na nossa história recente. A demissão em massa promovida pelas montadoras, a moratória mineira e a desvalorização do real são os indícios mais recentes desse prognóstico.
Há quatro anos os movimentos populares e os partidos de oposição estão alertando a sociedade brasileira para as consequências nefastas do modelo econômico adotado pelo atual governo. A deterioração da economia nacional, o aumento do desemprego e o aprofundamento da miséria trazem em si as marcas da abertura econômica desordenada, da irresponsável paridade cambial, dos juros altíssimos, dos benefícios de toda a ordem para o capital especulativo, das privatizações injustificadas e do ataque aos direitos sociais.
Obrigado a desvalorizar o real, o governo FHC insiste em erros já cometidos. Aumenta os juros, promove o arrocho de salários e efetua corte em investimentos sociais. Ao agir desta maneira, deixa claro que o principal ingrediente de sua receita para superar a crise é o empobrecimento da classe média e uma degradação ainda maior da qualidade de vida dos mais pobres. Para o governo FHC, o poço da pobreza e da injustiça não tem fundo.
A Central defende um caminho oposto ao de FHC para superar a crise. Em linhas gerais, na visão das lideranças comunitárias brasileiras, o combate ao atual estado de coisas se dará nas seguintes frentes: política, com o rompimento do acordo com o FMI e a construção de um novo pacto federativo; econômico-social, com crédito especial ao pequeno consumidor, anistia das dívidas dos trabalhadores desempregados e intensificação da reforma agrária e urbana, entre outras medidas; fiscal, com o fim das renúncias fiscais, a adoção do imposto sobre grandes fortunas, a elevação das tarifas de importação e crédito para a exportação; monetária, com a moratória da dívida externa e interna; e trabalhista, com medidas punitivas para as empresas lucrativas que demitem trabalhadores.
Não acreditamos que o governo FHC venha adotar medidas para sair da crise que poupem a maioria do povo de mais sacrifícios. Tampouco vemos credibilidade na movimentação de setores do grande empresariado, que reclamam da política econômica somente para conseguir redução de impostos, enquanto apóiam os insuportáveis cortes nos investimentos sociais.
A reafirmação de um projeto nacional passa pela articulação e mobilização das massas populares. O projeto do governo FHC para o Brasil - que combina exclusão social e submissão aos interesses das elites internacionais - só vai ser superado com a pressão, legítima e democrática, do povo organizado. É hora de ganhar as cidades e os campos e através de várias frentes de luta mostrar nossa indignação e nossa vontade de fazer do Brasil um país soberano e justo. Quem pariu e alimentou a crise que pague por ela.
- NELSON CARDOSO é presidente do Conselho de Saúde da Região Sul de Londrina (CONSUL) e membro da coordenação nacional da Central de Movimentos Populares


