Quem navega é o mar
Quem navega
é o mar
André Stumpf
A impressionante entrevista do antigo secretário-geral da presidência da República Eduardo Jorge ao repórter Ricardo Amaral, no jornal Valor Econômico, continua produzindo perplexidades em todos os recantos da República. Uma pergunta ainda não encontrou resposta. Qual foi o motivo que levou o ministro a se colocar em questão? E o fez com base em argumentos frágeis. O governo federal não controla os juízes classistas pelo simples fato de que as listas tríplices são organizadas por entidades sindicais.
Além disso, o Executivo não pode segundo a melhor política nomear um magistrado que esteja comprometido com esta ou aquela decisão. Admitir comprometimento de juízes equivale a fechar o Judiciário. Algo está escondido debaixo do tapete no Palácio do Planalto.
A sensação que percorre os dirigentes partidários não é boa. É um filme já visto. Provoca lenta e dolorosa agonia. E contribui para desmanchar governos e manchar reputações.
O ministro Pedro Parente afirma que o presidente da República e o ex-secretário Eduardo Jorge não tinham conhecimento das liberações de verba para a obra superfaturada do prédio do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Ele monta uma explicação técnica. Detalha item por item como se faz a liberação de recursos. E reafirma que o dinheiro deixava o Tesouro Nacional e seguia, sem escalas, para o Poder Judiciário. José Gregori, ministro da Justiça, afirma que Eduardo Jorge que está no exterior deve explicações à opinião pública.
O constrangimento é perceptível em toda a cena política. Eduardo Jorge, que levou Fernando Henrique Cardoso a apoiar a candidatura de Joaquim Roriz ao governo do Distrito Federal, tinha muito poder dentro do Palácio do Planalto. E acompanhava o presidente desde o início de sua bem-sucedida carreira política. Ele foi um operoso assessor no Senado ao tempo em que trabalhava com o senador FHC.
Os desvios de verbas na construção de São Paulo não ocorreram por lapso, por descuido ou por simples omissão. Trata-se de uma ação contínua, com objetivo definido. Alguém solicitou verbas durante seis anos e alguém as liberou aqui em Brasília embora a obra estivesse cercada de contestações.
Comissões e investigações se iniciam com roteiro definido. Mas seus integrantes não possuem a menor idéia de onde vão chegar. A CPI criada para apurar problemas no Poder Judiciário descobriu a falcatrua paulista e produziu os argumentos necessários para a cassação do mandato de um senador.
O juiz Nicolau dos Santos Netto está desaparecido. E agora emerge no centro do palco a figura de Eduardo Jorge, poderoso articulador do presidente da República.
Investigar é preciso. O senador Geraldo Melo (PSDB-RN), presidente da comissão representativa do Congresso neste recesso, vai indicar relatores para os pedidos de convocação, feitos pelo PT, para que sejam ouvidos Eduardo Jorge e Joaquim Roriz. O senador Pedro Simon quer ouvir Eduardo Jorge, e defende que isso seja imediatamente. É novo começo. O desenho de boa crise para o segundo semestre. É aquela incômoda sensação do comandante do barco que deixa o porto sem saber aonde vai chegar. Quem navega é o mar.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília





