O jornal francês Le Figaro entrevistou Paul Klotz, autor de um relatório que expõe como as grandes empresas de tecnologia estão lucrando com a epidemia do nosso século: a solidão! Às custas do Estado! Os números são estarrecedores e merecem uma reflexão. 12% dos franceses com mais de 15 anos, especialmente jovens e pessoas com renda modesta, vivem em situação de isolamento objetivo, portanto, o contato físico com outras pessoas é inexistente!

Segundo o autor, quanto mais pobre for a pessoa, maior a probabilidade de estar sozinha. Estudos mostraram de fato, que, quando se está isolado, é mais difícil acessar emprego, direitos e obter sucesso acadêmico. A solidão se transforma num ciclo vicioso que acentua as desigualdades. A sociedade está virando um grande arquipélago, sem nenhuma narrativa comunitária compartilhada, diz Klotz.

Quando os bistrôs são substituídos pelo delivery, ou os point-cafés engolidos pelas maquininhas instaladas em nossas cozinhas, então o caminho para uma solidão devoradora está asfaltado. Pessoalmente, me alegrei sobremaneira quando vi surgirem no início dos anos 2000, embora de forma tímida, as confeitarias em Londrina. Usei-as até para atendimento pastoral!

Para o autor, a 'domiciliação' do consumo e do entretenimento é uma das grandes forças das plataformas e da economia da atenção, típica do capitalismo digital. Há uma ilusão, de que atividades realizadas no quarto, nos poupam tempo e quem sabe, dinheiro! Contudo, no final, a equação não fecha! Fazemos menos exercícios, temos menos tempo livre para nos cuidarmos e, quem sabe, visitar alguém. Aliás, atravessar a rua para fazê-lo, vira uma tarefa hercúlea. A utilização dos tempos, que em tese “sobrariam”, virou uma quimera! Nem jardinagem, nem cozinha, nem academia! E o mais grave: segundo Klotz, o nosso tempo de sono por noite diminuiu uma hora e meia nos últimos cinquenta anos!

O entrevistado traz, porém, uma novidade; há agentes por trás deste descalabro, ou “doença do século”! São eles que impulsionam o consumo e geram ansiedade. Assim o afirma: “O que as grandes plataformas vendem naturalmente? Atenção. E como manter essa atenção pelo maior tempo possível? Organizando a solidão. Quanto mais isoladas as pessoas estiverem, mais disponíveis se tornarão para serviços que afirmam preencher esse vazio”! Parece novidade zero! No entanto, já sabíamos há anos que o consumismo desenfreado gera instabilidade emocional e vulnerabilidades várias.

Agora, constatamos que o pobre fica mais solitário e com isso, mais exposto a todas as mazelas que o poderão afetar. As plataformas o convidam insistentemente a ficar em casa e a evitar uma refeição com amigos e familiares! A necessidade de “comparação social” é uma espiral de decadência vertiginosa fraticida. Quando o leitor acha que já tem muitos seguidores ou tem “vida de rico”, aparecerão outros com um índice maior e cada vez maior, e o humilharão! O sentimento de frustração bate à porta.

A grande novidade trazida por Paul Krotz prende-se a uma perversidade avassaladora: Enquanto as plataformas ganham muito dinheiro provocando e alimentando a solidão, o Estado gasta bilhões de dólares para cuidar dos “infelizes solitários”, com a sua saúde mental! Segundo o entrevistado, a solidão aumenta os gastos públicos na Holanda em 10%.

Ora, partindo do principio que gastos com prevenção atendem pelo nome de investimentos, já passou da hora de ampliarmos políticas públicas que ajudem a libertar os cidadãos das teias mortais de uma vida digital. Seja por regulamentação, seja oferecendo alternativas viáveis que seduzam potenciais “solitários de carteirinha” a usufruírem de uma vida real salutar e agradável. As instituições, as empresas, as igrejas, os clubes, devem pensar seriamente neste assunto.

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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