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Quem ganha com 'Ganhando o Mundo?'


Como educadora, com mais de 30 anos de experiência na formação de professores de inglês em curso de licenciatura, e pesquisadora de políticas linguísticas com destaque para línguas estrangeiras, procurei alertar os senhores deputados sobre o projeto de lei 726/2019, do Executivo, antes de sua aprovação, em virtude de várias preocupações com seus custos e efeitos.



Batizado de “Ganhando o Mundo”, plagiando o similar “Ganhe o Mundo” desenvolvido pelo governo de Pernambuco, o programa foi “promessa da campanha do governador Ratinho Junior” (Gazeta do Povo, 26/09/2019). O objetivo é oportunizar “o crescimento, amadurecimento, independência, confiança e segurança dos estudantes, contribuindo para sua formação acadêmica e garantindo-lhes melhores oportunidades na vida profissional”. Entretanto, o programa não dá motivos para entendermos porque esse mesmo direito não será assegurado a todos os estudantes da rede pública que não participarão de mobilidade no Exterior. Configura-se claramente o caráter elitista e desigualitário do programa. Da mesma forma, não explica como o objetivo estará garantido por uma vivência em país estrangeiro.





Iniciativas semelhantes já existem nos estados de Pernambuco (Ganhe o Mundo), Maranhão (Cidadão do Mundo) e Paraíba (Gira Mundo), Programa Intercâmbio SEDU (Espírito Santo), sendo o pernambucano o mais antigo, criado em 2011, na esteira do Programa Ciências sem Fronteiras (CSF), que apostou na mobilidade estudantil como estratégia de desenvolvimento nacional. A respeito do CSF, nem mesmo a Comissão do Senado Brasileiro conseguiu chegar a resultados conclusivos sobre “qual a dimensão dos efeitos do Programa em favor da sociedade brasileira” (Relatório da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática, 2015). São desconhecidos estudos sobre impacto dos programas nos estados mencionados. A opção por essa estratégia deriva, portanto, de interesses políticos e não têm base em pesquisas.



Sabemos que a vivência em países estrangeiros faz parte do imaginário brasileiro e que sua superioridade permanece inquestionada. No entanto, é fundamental questionarmos o alto custo por aluno no “Ganhando o Mundo”. Com esse mesmo custo (24 milhões de reais por ano), seria possível desenvolver as mesmas capacidades sem sair do país, para um público muito maior, especialmente se considerarmos os avanços tecnológicos que nos permitem interações virtuais?


Como o estudante será avaliado em termos de possibilidade de adaptação em outra cultura acadêmica, além do conhecimento mínimo necessário em língua estrangeira? Essa medida essa avaliação poderá favorecer estudantes mais privilegiados que já dominam a língua estrangeira? Haveria o risco de o programa passar a mensagem de que “educação de qualidade se faz lá fora”, ou “de que se não é possível aprender língua estrangeira nas escolas públicas?” Qual seria o impacto dessa mensagem sobre a imagem e identidade de professores e sobre os excluídos desse processo? Como será o acompanhamento de estudantes no Exterior? Qual será o retorno que deverão trazer ao Estado? E à sua localidade?



Certamente essas questões serão equacionadas pelos responsáveis pela sua execução. Entretanto, permanecem dúvidas quanto aos beneficiários dessa política que emprega valiosos recursos da educação para uns poucos privilegiados.


Telma Gimenez, professora universitária aposentada. 



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