Quem está na contramão da exportação
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terça-feira, 04 de setembro de 2001
Paulo Muniz 
Nas últimas se manas, a im prensa registrou duas notícias im portantes para o parque exporta dor nacional: uma é boa, a ou tra, ruim. O fato positivo relaciona-se à decisão do governo federal em avaliar a formação de consórcios de exportação com o objetivo de facilitar o acesso de pequenas e médias empresas ao comércio exterior. O fato negativo é extraído de depoimentos de algumas de nossas autoridades, que, sem nenhuma sensibilidade, disseram que o brasileiro não sabe exportar, identificando incapacidade, falta de ousadia e preparo. Trata-se de duas posições que merecem uma análise.
Quanto ao primeiro aspecto, temos de nos congratular pelo fato de o governo, ao querer incentivar a formação de consórcios, espelhar-se na própria dinâmica do mercado. O setor de móveis praticamente não exportava até 1977. Depois de 98, um consórcio de 500 pequenos empresários do setor se reuniu, conseguindo, já em 99, exportar cerca de US$ 340 milhões.
A propósito, a nossa própria experiência, no Paraná, indica que a via associativa poderá ser uma importante alavanca para reforçar a área de exportação. Dezenove empresas pequenas e médias do setor agroindustrial avícola se juntaram numa sociedade, formando uma nova empresa, que terá como missão preparar e organizar as exportações de todos os seus associados. Esta estrutura representa a segunda produção de aves do Estado, com um volume de abate de 700 mil aves/dia.
Portanto, a multiplicação de associações desse tipo, com o incentivo do governo, abrirá, seguramente, o caminho para a sobrevivência de pequenas e médias empresas ante a concorrência das grandes companhias globalizadas e plenas de recursos e meios tecnológicos.
Mas a criação de consórcios assume maior significação quando se atenta para a questão central da estratégia de exportação: em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, quem forma os grandes volumes do mercado exportador não são as grandes empresas, mas as pequenas. Nesse país, que é o maior exportador mundial, 57% das exportações são feitas por empresas de pequeno e médio porte.
No Brasil, o modelo é contrário: 74,52% das exportações brasileiras são efetivamente realizadas por apenas vejam só 371 empresas, número quase insignificante, quando imaginamos que em um Estado como São Paulo, o parque produtivo é formado por mais de 110 mil empresas. Não pretendemos, em absoluto, estabelecer comparações entre estruturas econômicas e perfis nacionais muito diferentes. Mas não há como deixar de reconhecer a validade do princípio: a força da exportação está no pequeno e médio produtor.
Fosse facciosa a hipótese, teríamos um quadro de exportação bastante diferente do que temos hoje. Ou seja, fossem as grandes companhias a mola propulsora da exportação, deveríamos estar confortáveis nessa área. A verdade é outra: o Brasil tem perdido participação no mercado mundial. Há 20 anos, o País agregava 1,4% do comércio mundial, recuando para quase a metade na década de 90, quando nossa participação passou a oscilar entre 0,8% e 0,9%. Enquanto o comércio mundial cresceu a taxas de 7,5% ao ano nos últimos 15 anos, nosso País cresceu seu comércio em apenas 4%.
Em resumo: o modelo está errado. Não é viável concentrar-se a exportação em poucos produtos. O próprio Ministério do Desenvolvimento revela que apenas 25 produtos representam cerca de 60% das exportações brasileiras, sendo que a maior parte está nas mãos de um número muito reduzido de empresas, que respondem por quase 40% das exportações. Trata-se de um viés monumental, que precisa ser urgentemente corrigido.
O segundo fato, o de que o empresário brasileiro não sabe exportar, é uma conclusão precipitada e, mais ainda, eivada de preconceito. A questão não é a falta de preparo, de conhecimento. O que falta é incentivo governamental. Falta às pequenas e médias empresas apoio financeiro por parte dos bancos governamentais de fomento. Elas são muito competitivas, bastando apenas que lhes dêem as condições para tanto.
Basta verificar, por exemplo, a produção de frango. Trata-se de uma commodities produzida por pequenas e médias empresas e que, hoje, pode ser adquirida facilmente em qualquer rede de supermercados do País. Se pudéssemos colocar no mercado exportador o monumental potencial dos setores moveleiro, têxtil, calçadista e, principalmente, da área agroindustrial, o Brasil daria um salto gigantesco nas exportações.
É claro que necessitamos aprimorar os nossos quadros e modelos de gestão, além da modernização do parque produtivo. Precisamos intensificar o treinamento de mão-de-obra, os programas de gestão, as políticas de marketing e vendas. Uma condição prévia, porém, impõe-se: uma reforma tributária para desonerar o mercado exportador, dando-se às empresas brasileiras igualdade de condições às companhias internacionais. O empresariado brasileiro sabe exportar, sim. O que ele não sabe é explicar por que as soluções para a exportação são tão óbvias e claras, mas o governo persiste em querer desconhecê-las. Quem está na contramão da exportação não é o empresário.
- PAULO MUNIZ é empresário em Londrina, e presidente da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Paraná (Avipar)


