Cláudia Prochet
Na última semana observamos a movimentação da sociedade em torno da votação do pedido para instalação da Comissão Processante na Câmara de Vereadores de Londrina contra o prefeito Antonio Belinati. Paralelamente, constatamos a repetição de artifícios parlamentares objetivando protelar ao máximo a satisfação dos desejos da comunidade, tanto no sentido de aprovar quanto no de não dar prosseguimento aos trabalhos de investigação acerca do destino de milhões de reais, pertencentes ao município, e consequentemente a sociedade, sob suspeita de desvio.
Mais de 80 entidades representativas mobilizaram-se na conscientização da população, convidando-a a tomar parte no ato cívico de defesa da cidadania, a tomar conhecimento da posição adotada pelos vereadores por ela eleitos e de suas vinculações para as próximas eleições, sem nada oferecer como pagamento, cada um foi por sua conta e risco. Óbvio que o tom dominante nesse grupo foi dado por aqueles que têm acesso à instrução, à educação de qualidade, à informação, à alimentação, ao emprego e ao lazer, entre outros direitos básicos de cidadania.
Do outro lado, uma caravana composta por pessoas humildes, arrebanhadas, no sentido literal, em bairros pobres da periferia, que, com suas famílias, aproveitaram o ‘‘movimento’’ para ocupar o vazio de mais um dia sem emprego, ver o lado bonito da cidade sem ter que gastar com condução e encher o estômago com achocolatados e sanduíches de presunto, um lauto banquete para paladares adormecidos por arroz com feijão, principalmente se como em paga basta empunhar algumas bandeiras ou gritar palavras de ordem – como aconteceu na primeira sessão da Câmara que, por tumulto, foi suspensa, na terça-feira da semana passada. O passeio é ‘‘presente’’ de quem gosta do povo. Ou será do voto do povo?
Para estes, não importa saber por que estão na porta da Câmara de Vereadores, nem quem são eles. Afinal, para que isso serve a uma criança de 5 anos? Porém, se lhes fosse dado saber quantos litros de leite se compraria com a montanha de dinheiro em questão, ou quantas escolas de qualidade se manteria, com professores gabaritados, ou quantos empregos com salários decentes seriam criados, ou quantas áreas de lazer condignas seriam instaladas, ou assistência social efetiva para que no futuro pudessem disputar um mercado nas mesmas condições daqueles que estão do ‘‘outro lado’’ do cordão de isolamento, será que não trocariam de lado?
A questão em si não se esgota em saber qual das duas facções tem razão, ou defende a causa certa; nem em saber se a Comissão Processante chegará ao resultado esperado por elas, nem se o tipo de culpa que se atribuirá ao chefe do Executivo Municipal será por responsabilidade direta ou subjetiva ou aquela intrínseca ao cargo que exerce, ou seja, em razão de descuido na escolha dos ocupantes dos cargos de confiança ou se do descuido na vigilância dos atos praticados por elas, mas na essência da democracia.
O poder exercido pelos governantes, sejam eles do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário, é delegação da sociedade como um todo, e se ela duvida da idoneidade e correção do seu exercício, deve ter esclarecidas suas dúvidas através dos mecanismos previstos para isso; e não ver suas manifestações legítimas envolvidas em artimanhas engendradas com o objetivo de esvaziar galerias, como paralisações de sessões que levam o contribuinte ao limite da paciência e provocações de tumultos para justificar a não-realização da função legislativa; como acontece todas as vezes que se deve votar alguma matéria de relevância.
As reuniões de bancadas a portas fechadas e a intenção ilegal de não permitir o acesso do povo às galerias, demonstram a tentativa de tornar secreto aquilo que é sagradamente público, assim como a função e o dinheiro envolvidos. Se até um vereador, acostumado a essa chicana, declarou estar se sentindo ‘‘um palhaço’’, que dirá o povo? Se há isenção e honestidade nas intenções, para que se esconder?

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