O Paraná, como todos os demais estados da União, precisa fortalecer sua atividade produtiva, gerando empregos e, desta forma, aumentar as condições de vida mais digna à sua gente. Seria fantástico se, em cada município do nosso Estado, houvesse uma grande indústria sendo instalada. Mas jamais nos termos que condicionaram a instalação da Renault. O que se discute não é a atração de montadoras de automóveis para o Estado, mas as condições que estão sendo oferecidas para as atrair. O caso da Renault torna-se exemplar: as concessões foram tantas que obrigou-se o governador a esconder os termos do acordo entre o Estado e a empresa francesa, por todos os meios a seu alcance.
No afã de criar fatos para divulgá-los com propósitos eleitoreiros (aliás nunca se desperdiçou tantos recursos públicos com propaganda oficial em nosso Estado!) e sem medir o ônus de seus atos para cada cidadão, o governador do Paraná deixou de ponderar com atenção o que assinou. E, mesmo que o tenha feito, cometeu grave irresponsabilidade ao comprometer, de forma pesadíssima, as futuras gerações paranaenses.
Vejamos algumas dessas concessões. Inicialmente, fez a doação de um terreno de 2,5 milhões de metros quadrados, reservando mais de 500 mil m2 para o caso de a Renault necessitar de área maior em futuras ampliações. Ademais, toda a infra-estrutura, tal como terraplenagem, instalações elétricas, de telefones, de água e esgotos, via de acesso etc., num montante de cerca de 200 milhões, é de responsabilidade do Estado do Paraná.
Outra concessão generosa foi o compromisso de emprestar, via FDE/Banestado, um valor que não poderá ultrapassar o dobro da soma total dos investimentos da empreendedora. Ora, sendo o investimento previsto da ordem de R$ 900 milhões, o empréstimo poderá chegar a R$ 1,8 bilhão. Mas em que condições? Sem juros, sem correção monetária, sem taxas, com a primeira parcela vencendo daqui a dez anos, em junho de 2006.
Mas não ficou só nisso a generosidade do governador. Outros benefícios são os tributários que, por força do acordo, serão estendidos a todos os fornecedores indicados pela Renault e também às suas revendas. Só? Não. Com recursos do FDE (portanto recursos públicos), o governo do Estado integralizará R$ 300 milhões em ações do tipo B, sem o direito a voto e negociáveis apenas com a permissão da Renault. Ou seja, o Paraná compromete-se a ficar sócio da empresa: estatiza uma montadora de automóveis (enquanto privatiza a Copel e a Sanepar), mas sem o direito sequer a influenciar nas decisões.
O acordo com a Renault traz muito mais obrigações que os limites deste artigo comportam. Mas, apenas pelo exposto, é fácil concluir que a tão decantada parceria com a Renault não passa de uma franquia, pela qual a fábrica francesa entra com a grife e o povo do Paraná paga a conta. Pior ainda. Embalado pela arrogância dos que se acreditam oniscientes, o governador fez promessas que jamais conseguirá cumprir, com o compromisso de ‘‘viabilizar financiamento com juros subsidiados’’ junto ao BNDES (órgão federal que em nada está sujeito à autoridade do governador e que sequer participou do acordo).
Fico pensando como se sentem os empresários paranaenses que, nos últimos três anos, tiveram de fechar seus negócios sem terem recebido a mais ínfima ajuda do governo estadual para continuar produzindo e gerando empregos. Penso na Todeschini, tradicional indústria alimentícia paranaense, que dava emprego a centenas de famílias; na Coopagro, importante cooperativa do Oeste do Paraná, constituída por gente honesta e trabalhadora; a Chapecó, no Sudoeste do Estado, que viu sua produção de frango interrompida. E assim poderíamos desfilar cooperativas e pequenas empresas, pequenos e médios agricultores, casas de comércio em crise, à beira da insolvência, fechando suas portas.
Não somos xenófobos. Entendemos que o capital estrangeiro é bem-vindo e necessário. Mas, sublinhe-se, o capital. Será que, ao invés de doar recursos dessa forma, o governo não faria melhor estabelecendo linhas de financiamento às iniciativas paranaenses (especialmente para garantir as que já estão produzindo)? Não seria isto uma forma mais madura e responsável de gerar mais empregos e atenuar parte do sofrimento de nosso povo? Será que jogar bilhões de recursos públicos em uma única empreitada, enquanto nossos empreendedores estão à míngua, não configura traição ao que a população do Paraná espera dos seus governantes. Quem é o Calabar: o que entrega riquezas de mão beijada ou aquele que denuncia a irresponsabilidade dos prepotentes? O povo, em sua sabedoria, saberá escolher a resposta certa.

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