Quem decide?
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de janeiro de 2003
Ywao Miyamoto 
É ''negócio da China'' para os sojicultores argentinos e norte-americanos. Mas os sojicultores brasileiros grandes e pequenos estão sendo deixados de fora. Semana passada, o governo chinês optou em não aprovar o esquema de certificação brasileira, barrando a venda de nossa soja naquele país. Enquanto isso, a Argentina e os EUA, nossa principal concorrência, tiveram seus projetos de certificação aprovados, mesmo sendo estes em sua maioria, produtores de soja transgênica. Por que o todo esse barulho?
Sem dúvida, há um elemento de jogo estratégico. Talvez os compradores chineses enrolarão as compras até março, quando os preços da soja certamente cairão com a entrada no mercado da nova safra sul-americana. De fato, determinados compradores notam que a recusa da China é uma cópia da tática usada em 2002, quando eles compraram 4,1 milhões de toneladas a mais que no ano anterior.
A razão imediata para a China seguir esta estratégia é porque a mesma exige certificados lançados pelo governo federal, atestando a segurança alimentar da soja transgênica, caso a carga seja total ou parcial. O governo chinês só aceitará estes certificados se forem emitidos pelo país de origem. Toda essa incerteza só ocorre porque o governo brasileiro não permite ainda o plantio em escala comercial da soja transgênica. Sofrem os agricultores brasileiros, independente de terem vinte ou vinte mil hectares.
O esquema de certificação argentino foi aprovado, mesmo que a grande maioria da sua produção é transgênica. E, em Chicago, semana passada o preço da soja já subiu sete centavos de dólar, pois a soja norte-americana foi aprovada. A produção dos dois países é principalmente transgênica.
Nem podemos capitalizar com soja não-transgênica. Não estar ''liberado'' o cultivo dos transgênicos no Brasil não quer dizer necessariamente não ser cultivado, e os chineses sabem disso. A liberação do plantio da soja transgênica não significa que os sojicultores estariam obrigados a plantá-la. Seria apenas uma opção, como usar plantio direto ou tradicional.
Existem correntes argumentando que a Europa quer soja não-transgênica, e que o Brasil pode ganhar um mercado de nicho como o único produtor de peso dessa soja. A situação atual com a China enfraquece esta argumentação. Neste ano que passou o País perdeu vendas na Europa, em termos de valor de exportações.
Caso seja liberado o plantio da soja transgênica, o governo poderá emitir os certificados exigidos pelo governo chinês o que representa um mercado crescente para a nossa soja, em vez de bloquear o plantio do produto, supostamente satisfazendo o mercado europeu, que gastou menos dinheiro com a soja brasileira do que no ano passado e continua comprando soja transgênica dos USA e a Argentina.
Concluindo, o aval favorável do País em relação à liberação do plantio da soja transgênica, não somente é uma questão de lucratividade pura e simples, mas a garantia de sobrevivência dos produtores brasileiros em pé de igualdade, frente aos seus concorrentes.
YWAO MIYAMOTO é presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja.


