Quem apóia a UEL?
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de dezembro de 2001
Silvia Alapanian Colmán 
A decisão do Conselho Universitário da UEL de suspender por tempo indeterminado o vestibular de verão gerou a reclamação por parte de alguns segmentos de nossa sociedade de que o fato prejudicaria a sociedade londrinense.
Por que esse grito de protesto agora, diante da suspensão do vestibular, se a UEL encontra-se em greve há mais de 90 dias? A quem afeta a suspensão do vestibular? Ela afeta a rede hoteleira, os comerciantes, os donos dos cursinhos, os vestibulandos que planejaram suas vidas em função da expectativa de serem aprovados no vestibular de uma importante universidade pública.
Mas a sociedade londrinense é formada também pela população (a grande maioria pobre) que acorre ao Hospital Universitário e Hospital de Clínicas, à Clínica Odontológica e ao Escritório de Aplicação de Assuntos Jurídicos, e que vem sendo precariamente atendida nestes três meses de greve. É formada ainda pelo enorme contingente de pessoas beneficiadas pelas dezenas de projetos de extensão universitária, pelos serviços dos órgãos suplementares, pelos projetos culturais e artísticos realizados pela UEL.
A UEL é muito mais do que os recursos que gera com os concursos vestibulares, ela é produção de medicamentos para o Sistema Único de Sa© úde, é desenvolvimento de tecnologias, é formação de professores, é pesquisa e pós-graduação.
Toda a parte da sociedade que se utiliza direta ou indiretamente disso não está gritando, pelo contrário, vem demonstrando das mais variadas formas o seu apoio ao movimento dos professores, funcionários e estudantes pela reposição dos seus salários. Muitas vezes de maneira singela através da doação de alimentos aos funcionários carentes ou de uma palavra de incentivo, o que comove a todos nós.
Parte dessa população é muito pobre, depende da UEL, e conhece de perto o esforço dos funcionários e professores, auxiliados pelos estudantes, em manter serviços de alta qualidade com recursos parcos e sem reajuste salarial há quase sete anos. Outra parte, formada pelos pós-graduandos, institutos de pesquisa, órgãos públicos e demais parceiros, sabe que a falta de reposição salarial gera o sucateamento gradativo da universidade, e por isso apóiam o movimento.
Nós, como protagonistas deste movimento, sabemos da sua importância para a preservação da universidade, desse patrimônio construído ao longo de três décadas por toda a sociedade de Londrina e região. Não queremos que alguns setores da sociedade nos apóiem apenas porque acreditam que a UEL é uma fonte de lucros imediatos e de solução simples para a queda das vendas em alguns períodos do ano. Se a UEL hoje gera todo esse movimento é como consequência do reconhecimento em nível nacional da qualidade gerada pelo árduo trabalho, pela dedicação de seus servidores e pelo investimento do povo paranaense.
Nosso movimento tem causas maiores, precisamos da reposição salarial para mantermos em nossos quadros professores qualificados, que desenvolvem pesquisa e extensão de padrão internacional.
Precisamos manter a universidade pública paranaense dentro de padrões de qualidade que garantam ao Estado projeção nacional na formação de profissionais, além de tecnicamente qualificados, conscientes do papel de sua profissão na sociedade e no desenvolvimento de tecnologia e pesquisa de ponta. Queremos que a universidade paranaense seja pública, de acesso a todas as camadas da população, democrática e de qualidade.
Repudiamos a visão estreita e imediatista daqueles que acusam o movimento grevista e suas lideranças de irresponsáveis. Não fosse por responsabilidade não teríamos tolerado essa situação por seis anos, não fosse por responsabilidade não estaríamos protagonizando uma greve tão longa e sofrida para todos.
No entanto a nossa responsabilidade é para com a universidade, para com o povo de Londrina, do Paraná e do Brasil. Para defender a UEL é necessário ter coragem que a comunidade universitária está demonstrando desde a deflagração do movimento no ano passado, quando deu início a um processo de investigação interno denunciando irregularidades e buscando, sozinha, os caminhos para solucionar seus problemas.
Infelizmente não podemos dizer do nosso governo que tenha a mesma responsabilidade e coragem. Esse governo que vem sucateando o ensino público paranaense em todos os níveis, que é campeão de impopularidade, que está mergulhado em denúncias de corrupção, se dá ao luxo de ignorar por tanto tempo o movimento das universidades paranaenses e plantar o caos no setor.
Esperamos que o governo tenha ainda alguma sensibilidade e dignidade para fazer uma proposta digna aos servidores das universidades que têm projetado o Estado do Paraná pelo Brasil afora e não continue colaborando para destruir mais um patrimônio que é de todos nós.
- SILVIA ALAPANIAN COLMÁN é diretora da Associação dos Docentes da UEL (Aduel)


