Tráfico de drogas e violência sempre estiveram diretamente ligados. Dependentes químicos acabam fazendo qualquer coisa para conseguir dinheiro para alimentar o vício. Muitos matam e morrem por causa de uns trocados ou de um relógio. Crianças e adolescentes muitas vezes entram para o mundo do crime para manter o vício em crack e acabam mortos prematuramente.
A Secretaria Antidrogas de Curitiba está implantando projeto que visa tratar os dependentes químicos e assim quebrar o ciclo vicioso. A Rede de Comunidades Terapêuticas, em parceria com a Fundação de Ação Social (FAS) e a Secretaria Municipal de Saúde, pretende investir no tratamento de dependentes de crack e já está servindo de modelo para cidades do interior do Estado, que buscam consultoria na secretaria da capital para implantar a modalidade.
Londrinense, o delegado da Polícia Federal Fernando Francischini, atual titular da Secretaria Antidrogas de Curitiba, explica nesta entrevista como funciona o projeto.
O que é o projeto da Rede de Comunidades Terapêuticas?
A Rede de Comunidades Terapêuticas é uma parceria com as associações ligadas às igrejas, que montam núcleos de recuperação de dependentes químicos. Hoje o sistema de saúde pública está baseado em clínicas de recuperação e nos Caps - Centro de Atenção Psicossocial. Entendemos, com a experiência desses anos todos, que o Caps não serve para recuperar a dependência química do crack. O Caps é um atendimento ambulatorial. Imagine um dependente químico do crack, que precisa de desintoxicação, afastamento da família. Se ele fizer atendimento ambulatorial, toda noite ele volta para o crack. Em Curitiba a prefeitura disponibilizou R$ 1 milhão no orçamento deste ano para convênios.
Como funcionam essas comunidades?
A gente procurou em cada regional da prefeitura uma comunidade ligada a uma igreja, Católica ou Evangélica, que fizesse um bom trabalho. Nós estamos fiscalizando e ajudando-as a se regularizarem. A gente vai até a comunidade e dá toda a assessoria jurídica. Criamos uma forma inteligente de diminuir a violência indiretamente. Sem polícia, sem viatura, um trabalho básico de saúde envolvendo a comunidade, as igrejas e fazendo efeito na segurança pública.
Então o foco principal desse projeto é diminuir a violência?
Diminuir a violência, o homicídio e o tráfico de drogas. Se o tráfico é uma atividade comercial e eu diminuo a quantidade de clientes, eu estou diminuindo a violência, o homicídio e o tráfico. É claro que se tivermos recuperação do efetivo policial militar, o retorno da estruturação de módulos e tendo um projeto de prevenção, de recuperação, está formada uma secretaria de segurança moderna.
E esse projeto já está funcionando em Curitiba?
Já existe a rede, com a Fundação de Ação Social e a Secretaria de Saúde. Ela está no projeto piloto e agora em março deve ser lançada oficialmente. A nossa ideia é chegar a mil internamentos nesse ano de 2010. Nós vamos atingir crianças, adolescentes e moradores de rua.
Vocês vão auxiliar só com as entidades ligadas a igrejas ou particulares também?
Todas as entidades. Nós só vamos criar uma metodologia de trabalho obrigatória, em que cada um que queira entrar nessa rede, e receber dinheiro da prefeitura em troca dos internamentos, vai ter que se adaptar. Nós vamos estudar qual a melhor metodologia para a recuperação. Uma delas é a laborterapia, a outra pode ser o componente espiritual de uma igreja. Nós vamos criar opções, mas opções que já funcionem em outros locais. Os profissionais da área de saúde estão desenvolvendo.
E nos casos das clínicas particulares, como vai funcionar?
Nós vamos fazer convênios, vamos ter um número de vagas predeterminadas por mês e conforme a prefeitura encaminha faz o pagamento por mês para aquela comunidade.
Vocês se basearam no modelo de algum país?
Nos Estados Unidos já funciona bem em alguns estados. Em Minas Gerais tem uma política parecida com essa, a gente só adaptou a consultoria e a estruturação das comunidades. Na verdade fomos buscar uma ideia em cada local, foi montado um grupo de trabalho com as áreas de saúde, educação, ação social e criamos um modelo que achamos que é o ideal.
No interior o trabalho é de consultoria?
Consultoria de como as comunidades podem se estruturar, como podem cobrar das autoridades e essa metodologia de trabalho de usar a parte religiosa, o que antigamente era muito polêmico.
O foco serão os usuários de crack ou dependentes de drogas em geral?
(Usuários) De crack. Essa não é uma política pública direcionada só à área de saúde e sim ao combate à violência. E a gente entende que a grande droga da violência é o crack, o restante não faz nem cócegas.
E como será o atendimento? Tem um prazo para o internamento?
Normalmente o prazo médio é de oito, nove meses. No início tem uma desintoxicação que é feita em hospital, e não na comunidade, porque são necessários remédios. A partir do terceiro mês há a retomada da visita da família. Outro ponto é a laborterapia, para ocupar a cabeça dele e criar uma nova expectativa em termos de profissão, de trabalho, até para ele se preparar para quando sair.
Vai ser focado então em cursos profissionalizantes?
Nós vamos funcionar agora com nove comunidades terapêuticas. Já estamos licitando nove laboratórios de informática. Nós vamos fazer um comodato com a instituição que for escolhida, ela vai receber os computadores com internet e o professor da Fundação de Ação Social irá todo dia para dar aula. Ele vai sair (da comunidade) sabendo trabalhar profissionalmente com vários programas, montagem de sites. Vamos tentar, além de recuperá-lo, criar uma profissão. Geralmente a gente vê laborterapia como capinar mato. É importante ele ter uma atividade braçal, mas não só isso.
Serão atendidas só as pessoas carentes?
As comunidades geralmente têm 30 vagas. A nossa ideia é que 20 vagas sejam para pessoas carentes, pagas pela prefeitura. Nós vamos usar os critérios da Ação Social, por exemplo, o cadastro no Bolsa Família. As classes média e média alta vão pagar o próprio internamento. O integrante da classe média pode até usar a rede, mas nosso objetivo é o carente.

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