Tem um antigo ditado espanhol na verdade, muito mais antigo do que espanhol que parece bastante apropriado para brindarmos o novo ano: ''Que venha o touro... mas em forma de bife''. Quer dizer: que venha 2002, mas que não seja carne de pescoço como o ano que se apaga.

Se percorrermos as páginas dos jornais de 2001, certamente encontraremos substantivos sombrios (pânico, terror, medo, horror, guerra, tumulto, corrupção, caixa 2, etc) enfileirados ao lado de substantivos incômodos (desconfiança, nervosismo, sobressalto) e nomes próprios inquietantes como Argentina, Equador, Roque Júnior e Eurico Miranda. Mas, claro, não há razão para desespero coletivo.

O ideal é nos desesperarmos em pequenos grupos, assim ninguém atrapalha o andamento normal do serviço ou o processo de globalização (ao pronunciar esta palavrinha, recomenda-se bater três vezes na madeira).

Como o homem é um animal movido a esperança e cafuné na cabeça, e como o momento não é apropriado para pessimismo ou crônicas rabujentas, não custa lembrar que também aconteceram coisas boas em 2001... E outras tantas deverão acontecer no ano da graça eleitoral de 2002. Se repararmos bem, o ano-bebê até que tem uma carinha simpática. Bem mais simpática que a do velho, aquela cara metade Bush, metade Bin Laden.

Outra coisa: notou que 2002 ao contrário é exatamente 2002? Isto sem dúvida contém importante significado numerológico e cabalístico, embora eu não faça a menor idéia de qual seja. Mas não faltam motivos mais concretos para ficarmos otimistas.

O preço da gasolina vai baixar (garante o governo), o salário vai subir (pouco, mas vai garantem os políticos) e Ricardo Teixeira vai renunciar (isto ninguém garante, mas tudo bem). A vacina contra a Aids vem aí, os congressistas vão ter imunidade parlamentar reduzida, Ronaldinho está voltando a jogar bola e a banda Pearl Jam vai tocar no Brasil! Caso isto não seja suficiente para estimular um banho de champanhe, que tal comemorar o fato de que a população de araras-azuis (ainda ameaçadas de extinção) aumentou 64%? Hem?

Depois de todo o esforço do cronista, se o leitor não se convenceu de que 2002 será um ano melhor do que 2001, pelo menos resta o consolo de que, no Brasil, ele certamente passará mais rápido. Explica-se: temos aí a ressaca de janeiro, o Carnaval, depois empurra-se com a barriga até a Copa do Mundo, vêm a campanha eleitoral, as eleições e logo será Natal e ano-novo. De novo!

Que venha 2003!

NELSON CAPUCHO é escritor e jornalista

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