Tudo bem. Você está confortavelmente instalado no sofá ou na cama. Tem o controle (remoto) nas mãos. Você pode tudo, especialmente iniciar uma viagem pelos canais da televisão.
Primeira parada: ‘‘Programa do Ratinho’’. Depois de tapas, escorregões, xingamentos diversos, microfones quebrados, sofás arrastados, perucas que caem, calças que caem e gente - imagine a originalidade - que também cai, sob o açoite de tamancadas, você fica sabendo que o DNA venceu mais uma vez. Sim, ele é o pai, aquele safado!
Segunda parada: Novela ‘‘O Clone’’. Amanhece e você está no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, apesar da dengue. Psiu, não seja descortês, reparando que vários artistas do ‘‘núcleo rico’’ da novela sumiram, por causa de um surto tão tipicamente suburbano. Dê um desconto, afinal isso não tem nada a ver com a vida real! Sem prévia preparação, contudo, você está no Marrocos e lá, apesar de tantas proibições, dança-se muito e a música e os requebros das mulheres envolvidas por inúmeros véus mexe com a sua libido. Contenha-se, você não é um clone - de quem, a princípio, aceita-se qualquer tipo de comportamento - e pode passar apertado para explicar a algum muçulmano indignado as razões obscuras de seu olhar oblíquo.
Terceira parada: ‘‘Descontrole’’, com o ‘‘bad boy’’ Marcos Mion. Você se assusta, mas é verdade, o ‘‘cara’’ está organizando um ‘‘arremesso de anões’’! Pior, outro cara quer se suicidar ao vivo (interessante paradoxo!) e em cores, bem na sua frente. Pior ainda, o Supla aparece e se sai melhor do que o apresentador.
Quarta parada: ‘‘Cena de filme’’, na qual pescoços são quebrados em lutas marciais entre máfias chinesas.
Quinta parada: Outra ‘‘cena de filme’’, em que um psicopata usa um cutelo para... Bom, você não vai querer saber com que finalidade ele pretende usar o cutelo (vai?).
Chega! Você desiste enquanto ainda resta um pouco de massa cinzenta em seu cérebro (ligeiramente calcinada, é verdade, mas o que se há de fazer?). Num ato de coragem, desliga a tevê, desligando o controle (remoto) que exercem sobre você.
Mas está sem companhia. Pensando bem, de que adiantaria, já que não possui aquele item cada vez mais necessário ao homem e à mulher modernos, o edredom, sob o qual absolutamente tudo (ao que parece) pode acontecer.
Que tal um livro? Esse amigo certo das horas incertas, que tem condições de lhe oferecer conhecimento e distração, e sobre o qual você exerce real poder. Pode escolher o tema, entre milhares à sua disposição; pode adequá-lo ao seu tempo disponível; pode decidir quanto pagará por isso, caso o compre na livraria ou no sebo, e até mesmo não gastar nada, caso o empreste de um amigo ou da biblioteca.
É uma ‘‘viagem’’ que você define e da qual sempre retornará com - para usar uma expressão contemporânea - alguma vantagem competitiva, a ser usada em conversas, para demonstrar seu domínio sobre assuntos variados e sua bem fundamentada opinião.
Segundo uma pesquisa recente, organizada pela CBL - Câmara Brasileira do Livro -, de um público estimado em 86 milhões de pessoas - nossa fatia de população alfabetizada com mais de 14 anos -, apenas 17, 2 milhões, cerca de 20%, teriam comprado pelo menos 1 livro no decorrer do ano 2.000, o que daria a ‘‘espantosa’’ média de 1,21 livros por adulto brasileiro alfabetizado!
Não seria essa falta de leitura habitual, e benefícios decorrentes, uma das razões pelas quais os poderosos das redes de televisão sentem-se tão à vontade para nos impingir qualquer coisa?
ANA MARGARIDA SETTI ROSA, jornalista e escritora, Londrina

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