O Brasil criou, ao longo das últimas décadas, um amplo programa de assistência social com o objetivo legítimo de combater a pobreza e garantir dignidade mínima à população mais vulnerável. O Bolsa Família, nesse sentido, nasceu com uma intenção nobre. No entanto, por não ter sido acompanhado de um planejamento eficiente de transição para o mercado de trabalho, acabou gerando um efeito colateral grave: a criação de uma parcela da população presa a esse sistema.

Hoje, muitas pessoas se veem diante de um dilema cruel. Se entram no mercado de trabalho formal, perdem imediatamente o benefício. Se permanecem no programa, garantem a sobrevivência no curto prazo, mas renunciam à possibilidade de crescimento profissional, evolução pessoal e melhoria real de vida. Esse é o problema do indivíduo: uma escolha que nunca é verdadeiramente livre, pois qualquer caminho pode trazer perdas.

O que se observa são indivíduos mantidos por um valor baixo que, somado a alguns “bicos”, acaba resultando em uma renda mais ou menos equivalente a um salário de mercado. Assim, o indivíduo prefere ficar com pouco, porém garantido, a enfrentar a incerteza do mercado de trabalho.

Mas há aí um prejuízo silencioso, porém profundo: o trabalhador que fica fora do mercado por muito tempo perde prática, atualização e confiança. Suas habilidades se tornam obsoletas, suas chances de recolocação diminuem e sua renda futura tende a ser menor.

O impacto, no entanto, não para aí. Do ponto de vista do país, a situação é ainda mais preocupante. Ao desestimular — ainda que de forma indireta — a entrada ou a permanência no mercado formal, o Brasil reduz sua força de trabalho ativa. O resultado é um cenário em que há cada vez mais pessoas dependentes de auxílio estatal e menos gente contribuindo oficialmente com impostos, produção e desenvolvimento econômico. Não vai demorar muito para termos mais pessoas recebendo benefícios sociais do que trabalhando formalmente.

Se olharmos o noticiário, vemos que países que não têm mão de obra suficiente estão desesperadamente em busca de imigrantes, sob pena de comprometerem seu desenvolvimento. Será que vamos ter de apelar para imigrantes? Isso seria um absurdo.

Esse fenômeno da falta de mão de obra já é sentido em praticamente todos os setores. Não há um único setor que não tenha percebido esse problema. Isso é grave e pode comprometer seriamente o desenvolvimento do país.

Essa equação não fecha. Um país que perde trabalhadores, experiência acumulada e produtividade está condenado a uma evolução lenta, frágil e insuficiente para romper o ciclo de estagnação em que se encontra. Sem crescimento consistente, o Estado arrecada menos, investe menos e passa a necessitar cada vez mais de programas assistenciais, criando um círculo vicioso difícil de romper.

O problema, portanto, não é a existência da assistência social, mas a forma como ela está estruturada. Programas como o Bolsa Família deveriam ser uma ponte, não um destino. Precisam oferecer mecanismos reais de saída, com transições graduais, incentivo ao trabalho formal, qualificação profissional e a garantia de que o esforço para crescer não será punido com a perda imediata do apoio.

Do jeito que está, todos perdem: o beneficiário e o país. Persistir nesse modelo é aceitar um beco sem saída. Se o Brasil quiser mudar sua trajetória, precisa encarar esse debate com seriedade, coragem e responsabilidade, colocando o trabalho, a questão social e o desenvolvimento no centro das políticas públicas. Não é possível que as autoridades ainda não tenham tomado ciência e consciência desse grave problema.

Mudar essa situação não é apenas uma questão econômica. É uma questão de futuro.

Ary Sudan, economista e empresário

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