Que País é este? - Aldina Rocha
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de abril de 1999
Aldina Rocha 
Alguém pode imaginar uma pessoa que trabalhou, lutou a vida inteira, derramando o seu suor numa terra produtiva, que durante mais de 60 anos doou-se em trabalho ardoroso, não só no seu sustento e de sua família, mas também empregando centenas de pessoas, e que hoje está sem teto, morando numa casa alugada, sem um tostão ou recurso, com muitas dívidas, vivendo da ajuda dos filhos, que lhe pagam aluguel, contas de mercado, farmácia, médico etc? Sim! Isto acontece no nosso País. E acredito que não seja só com Osvaldo Rocha, da Fazenda Cachoeira, em Sapopema, no Norte do Paraná.
Terra produtiva com cerca de 600 alqueires, adquiridos com sacrifício e luta, ao longo de tantos anos. Ele, que começou com poucas terras, foi economizando, trabalhando duro, nunca tirou férias ou conheceu as grandes metrópoles, aumentando o seu patrimônio, morando numa casa simples, dentro da fazenda, a vida inteira labutando, a princípio com café, depois com gado nelore.
Depois de muito sacrifício pessoal, anos de luta solitária, saudoso, enquanto sua mulher cuidava dos filhos, que estudavam em Londrina, quando as coisas já estavam melhores, 8 filhos criados, quase todos formados, labutando cada um na sua carreira, enfrentando as dificuldades normais que o País atravessa, começa a aparecer a Osvaldo o fantasma da invasão de suas terras.
Ele começa a procurar justiça, pensando que ela existisse no nosso País. Denuncia, ganha causas, mas apesar de tudo ganho, os sem-terra vão se aproximando cada vez mais da sede. Osvaldo consegue ganhar na Justiça novamente, mas a esta altura já gastou o patrimônio de mais de 800 vacas em advogados, viagens a Curitiba, peões para auxiliar a atender a terra.
Após muita luta, ele consegue finalmente a sentença de desocupação das terras. Na retirada dos sem-terra, ele tem que alugar alguns ônibus e entregar cada pessoa na sua cidade de origem, algumas até a mais de 300 quilômetros de distância, além de fornecer alimentação para todo o bando. Respira aliviado. Afinal, perdeu muito dinheiro, praticamente todo o gado, sobraram apenas poucas vacas leiteiras. Endividou-se bastante, porém se livrou dos invasores.
Infelizmente, porém, isto não dura muito, e em poucos meses eles retornam. Como Osvaldo se encontrava naquele dia na cidade vizinha, eles se aproveitam do feriado e desta vez invadem a sede, a casa em que o proprietário viveu com a sua família durante quase 50 anos.
E agora? Osvaldo Rocha perdeu não só as suas terras e máquinas, mas o seu lar, com todos os seus pertences, suas roupas e de seus familiares, sua geladeira, televisão, freezer, móveis, roupa de cama e mesa, talheres e até mesmo seus álbuns de fotografias, suas melhores lembranças! Alguém pode imaginar a extensão de uma calamidade dessas?
Muitos se queixam quando acontece um incêndio ou uma enchente, todos se mobilizam no auxílio fraterno ao próximo, porém, estas são calamidades da natureza, são fatalidades. Mas, pergunto, e o que está acontecendo debaixo de nosso nariz e por que as autoridades não tomam as providências no caso? Não sou contra a reforma agrária; ela deveria ter sido feita há muito tempo. O erro, na minha opinião, é permitirem que tais arbitrariedades aconteçam, nas barbas da Justiça.
Lá se vão muitos meses e Osvaldo nada pode fazer para se defender.
Chegou a hora de acordarmos para este problema imenso que avassala o nosso País e tomarmos alguma atitude. Que incentivo terão os fazendeiros daqui para frente em investir em terras, máquinas, produtos agropecuários, se a qualquer momento tudo poderá ser tomado? Existe justiça em nosso País?
- ALDINA ROCHA é escritora em Ponta Grossa


