QUE NOME É ESSE?
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domingo, 19 de janeiro de 2003
Renê Muller<br> Reportagem Local 
Quino, um dos mais tradicionais mecânicos de motos da Vila Nova (região central de Londrina) fica sempre meio sem jeito para passar do seu apelido para o nome de registro em cartório. O filho de dona Claudina e seo Alcides chama-se, oficialmente, Alquetecrino dos Santos. Aos 53, ele diz que já nem se importa com as dificuldades de compreensão e de escrita do primeiro nome. Mas ainda parece incomodado ao soletrá-lo. Poucos acertam a pronúncia de início. É uma das mais desagradáveis provações pelas quais passam, no dia-a-dia, os batizados com nomes que para o povo brasileiro são, no mínimo, diferentes.
''Hoje em dia eu levo na boa'', diz o mecânico, após corrigir meio sem graça seu interlocutor, que insiste em chamá-lo de ''Altequetrino''. ''Os mais próximos me conhecem pelo apelido, e quando tenho que dar meu nome, tiro a carteira de identidade do bolso e mando copiar''. Ele diz que o nome é bíblico, e foi idéia do pai. A razão exata da escolha, porém, não sabe.
O técnico-agrícola Aresmundinei Dias Campos, 49, costuma ser chamado como Dias, ou de Ares. Quando menino, nos bancos de escola da natal Mandaguari (33km a leste de Maringá), passava um cortado com a lista de chamada. ''As professoras sempre perguntavam como era o nome, mas eu dizia que era difícil de falar'', relembra. Os pais, conta, juntaram Aresmundo com Sidinei. O porquê, ele não sabe. ''Foi coisa dos velhos, mas hoje já estou acostumado. O pessoal podia dar um prêmio para quem tem um nome assim, não?'', brinca Dias.
Já o filme americano Os Dez Mandamentos, lançado em 1956, e que traz Charlton Heston interpretando o bíblico Moisés, serviu de inspiração para o nome da pequena Yoshebel Rebeca de Souza, 8 anos, do Jardim Santa Rita (zona oeste de Londrina). Era o nome da personagem interpretada pela atriz Martha Scott. ''Assisti o filme quatro vezes, e sempre fui fascinada por Yoshabel, que é verdadeira mãe de Moisés'', recorda a autônoma Neusa Pereira de Souza, tia de Yoshebel. ''Era assim que queria batizar minha filha''. Mas a sobrinha chegou antes, e Neusa não se conteve: sugeriu o nome para o irmão Rubens e a cunhada Luci, pais da criança.
No cartório, a escrivã sugeriu trocar o ''a'' do Yoshabel judaico pelo ''e''. ''Ficou mais bonito'', diz a tia. A menina diz que já está acostumada com as inevitáveis perguntas sobre a origem da palavra. ''Agora, eu já sei de onde vem meu nome, e é fácil de explicar'', relata. O maior trabalho são os erros de grafia. Especialmente com a letra ''Y'', que costuma virar ''J''. O lado bom é a originalidade. ''Não conheço ninguém com o mesmo nome'', lembra a estudante.
Ser conhecido por nome incomum pode render boas histórias. Ser chamado por um deles, também. ''Ô Zualdo!'' Foi esta expressão que terminou em um curioso detalhe na infância do funcionário público aposentado Zualdo Bavia, 77 anos. Ele se diverte com as confusões que ocorriam. Filho de italianos, o pai de Lecce e a mãe calabresa, seo Zualdo tinha um nome diferente do registrado em cartório. Em casa e nas ruas de Ribeirão Preto (SP), o ''Ô Zualdo!'', de tanto pronunciado, acabou transformado em Oswaldo. ''Se pegar o meu boletim lá pelos 4 anos de idade, você vai ver que na lista de presença eu me chamava Oswaldo'', afirma.
Mas a ''livre interpretação'' acabou quando chegaram os 18 anos, e o obrigatório serviço militar. Conforme Bavia, os milicos ''procuraram na fonte'', e, de acordo com o registro oficial, voltaram a chamar Oswaldo de Zualdo. Hoje, ele diz que o nome está devidamente incorporado. ''Nunca tive maiores problemas'', assegura. ''Quando pinta alguma confusão eu só mostro a carteira de identidade''. Hoje, o aposentado ostenta o Zualdo com muito orgulho, a ponto de usá-lo também para batizar o filho.


