Nos bastidores do episódio de desocupação dos moradores de um loteamento clandestino em São Bernardo do Campo (SP), na última semana, quando policiais e civis se enfrentaram com bombas atiradas de ambos os lados, havia outra batalha sendo travada. Os moradores, enganados por falsos proprietários de terrenos, estavam inconformados com a presença da imprensa no local. Por pouco não agrediram também os jornalistas. A alegação: a imprensa nunca atendeu aos apelos anteriores dos moradores que, informados da desocupação, pediam ajuda antes que uma tragédia acontecesse. Os repórteres, diziam, só aparecem quando a desgraça já está acontecendo.
Não cabe aqui uma discussão sobre o papel da imprensa mas entender o profundo abandono de 180 famílias enganadas e roubadas. Os moradores já haviam batido em várias portas pedindo ajuda, desde a do Ministério Público, que ordenou desocupação, até a da Prefeitura de São Bernardo do Campo. Queriam um acordo, uma alternativa, uma saída. Nada. Na falta de apoio oficial, é natural que esperassem uma mãozinha da imprensa.
Como eles, as camadas mais pobres da população cada vez mais batem em portas fechadas. Na ausência do Estado, entendido aqui em todas as suas formas, acabam procurando ajuda em outras instituições, nem sempre muito sérias. Os templos de algumas seitas estão lotados de gente pedindo a graça de ter um parente próximo curado de alguma doença. Os programas populares, do tipo Ratinho Livre e congêneres, têm longas filas de pessoas que esperam ajuda da Justiça ou lutam para ganhar uma cadeira de rodas. São todas necessidades básicas dos cidadãos que o Estado deveria suprir.
Uma senhora de meia-idade não deveria se sentir compelida a enfrentar as humilhações do Ratinho para que o filho possa ser operado. Bastaria dirigir-se a um posto de saúde. Um trabalhador poderia dispensar a reza e a ‘‘ajuda’’ à igreja da esquina para conseguir um emprego. Um seguro-desemprego decente e cursos de atualização o ajudariam a voltar ao mercado de trabalho - se houver emprego, claro. Portanto, há uma ligação de causa e efeito entre os conflitos em São Bernardo, o surgimento dos Ratinhos na televisão, o enriquecimento das Igrejas e a ausência do Estado. Quanto mais inoperante o Estado, mais os Ratinhos ganham.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília

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