Há poucos dias, participei de uma mesa de debates promovida pelo Corecon de São Paulo, em comemoração ao Dia do Economista, envolvendo vários especialistas em economia brasileira e os representantes dos mais bem colocados candidatos à presidência da República. Obviamente, que pela qualificação dos participantes e por ser um debate aberto, não houve espaço para mentiras ou mistificações como às que assistimos na mídia ou em pronunciamentos de autoridades. Foram análises realistas, baseadas em dados estatísticos geralmente oficiais ou de alta confiabilidade.
Na oportunidade, o representante do candidato governista fez uma enfática colocação, de que a vitória de um dos candidatos de oposição poderia representar ameaças às ''conquistas e à estabilidade alcançadas no governo Fernando Henrique Cardoso''.
Não perdi a chance de colocar uma pergunta que tinha atravessada na garganta. Iniciei, registrando que nesse período ocorreu o seguinte: as contas externas alcançaram tal desequilíbrio, que nos últimos três anos, temos a necessidade de buscar mais de 50 bilhões de dólares em empréstimos ou investimentos para equilibrá-las, ou seja, o equivalente a três usinas de Itaipu a cada ano.
A hipótese de ''insolvência'' com o exterior tem sido o fator mais considerado para classificar como altíssimo o risco Brasil. A política cambial, mantendo o dólar artificialmente barato, gerou perdas nos saldos comerciais equivalentes a 110 bilhões de dólares, ou seja, seis usinas de Itaipu, mas que, por sua vez, acumulando custos de financiamento e desequilíbrios derivados, chega a um custo próximo de 50% do PIB. Tivemos a necessidade desesperada de recorrer três vezes ao FMI, entregando até a alma para conseguir acordos.
O equilíbrio das contas governamentais, tão decantado nos ''superávites primários'', não soma as despesas com juros, que, na dívida pública total, ultrapassou 750 bilhões de reais no período, ou seja, 16 usinas de Itaipu. A dívida pública total passou de R$ 153 bilhões, em 1994, para mais de R$ 750 bilhões e não pára de crescer, atingindo situação tão crítica que o FMI determinou um aumento no esforço fiscal. O dinheiro das privatizações vazou nesse grande ralo. A carga tributária cresceu mais de 40%, sendo em termos reais a mais alta do mundo, mesmo assim, o ministro da Previdência anuncia que teremos um déficit de R$ 53 bilhões, mais do que uma Itaipu.
As taxas de juros primárias variaram entre 60% e 17,5%, também campeãs mundiais. Pesquisas do IBGE mostram que a renda média dos trabalhadores caiu 10,3% entre 1996 e 2001, piorando a distribuição de renda. Estamos atingindo um recorde histórico com perto de 11 milhões de desempregados. A comparação entre diversos índices de preços mostra que existe uma inflação represada que fatalmente eclodirá. Pior, um dirigente da ANP afirmou, durante o Congresso do Petróleo, que a contenção do preço do gás de cozinha poderá durar até o fim do período eleitoral.
A melhoria de atendimento no SUS - sistema público de saúde somente existe na propaganda oficial. As populações pobres estão massacradas e a epidemia da dengue bate novos recordes. O sistema de ensino superior teve uma expansão irresponsável, com uma perda de qualidade tão brutal que a titulação não mais garante competência para o trabalho e as universidades públicas atendem preponderantemente os filhos dos ricos.
Nossas autoridades econômicas levaram ''pitos'' da vice-diretora-gerente do FMI e do secretário do Tesouro dos EUA e ficaram quietinhos. As Forças Armadas têm sido sistematicamente sucateadas e depreciadas, justamente num país tão grande e tão vulnerável. Um organismo criado para coibir a corrupção governamental só apareceu agora e para denunciar ''supostos desvios'' atribuídos a políticos da oposição, esquecendo de vasculhar os escândalos dos grampos, das privatizações, dos fundos de pensão monitorados pelo governo, do episódio dos bancos Marka e Cindan, dos empréstimos de bancos públicos, da lavagem de dinheiro etc.
Concluindo, perguntei: afinal, que estabilidade é essa que tanto deveremos preservar e por que ter o temor de não perdê-la? É claro, que ele não conseguiu responder. Saiu derrotado no seu discurso, mas não cometeu o pecado de mentir, de ser hipócrita ou cínico, como muitos daqueles que, investidos de cargos públicos, seguidamente o fazem. Ele não ganhou a adesão dos presentes, mas mereceu o respeito concedido àqueles que percebem os equívocos, pois na verdade o Brasil vive a estabilidade de um furacão.
LUIZ ANTONIO FAYET é economista, consultor de empresas, foi deputado federal e presidente do Badep e do Banco do Brasil

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