Parte dos cachorros de Campo Mourão está condenada à morte. Resta-lhe apenas dois meses de vida. A sentença foi dada pela Prefeitura, que promete colocar em funcionamento um veículo para recolher animais que andam soltos pelas ruas. A famigerada, ultrapassada, cruel, sanguinolenta e covarde ‘‘carrocinha’’ já tem até data para iniciar sua triste missão: 3 de maio. A partir daí, cachorro que for apreendido e não retirado em três dias será covardemente assassinado. Sem direito a defesa e sem segunda chance.
Mas, afinal de contas, qual foi o crime cometido pelos cachorros de Campo Mourão? A Prefeitura alega que a execução só vai acontecer em último caso e que todos os animais que forem procurados pelos seus donos escaparão da morte. E os que não forem procurados, merecem morrer por isso? E os cachorros que não tiverem dono, vão ter que morrer por causa disso? Dizer que os inocentes cães serão doados a ‘‘instituições de pesquisa’’ não convence. Parece estar faltando sensibilidade em Campo Mourão.
Justo Campo Mourão, que virou notícia em todo o Estado através da servidora Irene Rohling, que mantém em casa mais de 200 cachorros e gatos. A maioria deles foi encontrada abandonada pelas ruas (foi assim, aliás, que a ‘‘coleção’’ começou) ou deixada no portão da residência do casal. Justo Campo Mourão, que se orgulha em priorizar obras e serviços de acordo com os pedidos de núcleos de base espalhados pela periferia do município. Qual núcleo de base pediu - e priorizou - a implantação da carrocinha?
Nenhum núcleo de base, com certeza, fez um pedido desses, até porque existem outras prioridades em Campo Mourão. Para colocar a carrocinha em operação não foi preciso polemizar o assunto com a apresentação de nenhum projeto de lei. Bastou se basear no Código de Posturas do Município, editado em 1964. O mesmo código diz que cavalos não podem trafegar em alto velocidade pelo centro da cidade. Também obriga salas de cinema e de teatro a terem escarradeiras. Isso já basta para ilustrar que boa parte do código só serve para ser ignorada.
O secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente, o vice-prefeito Márcio Nunes, justificou, durante entrevista a uma emissora de rádio, que, em média, três pessoas são mordidas mensalmente por cães em Campo Mourão. Mas será que quem morde são os cães sem donos que andam pelas ruas? Com certeza, não. Basta lembrar que o cachorro que recentemente matou uma pessoa em Apucarana e deixou outra gravemente ferida em Maringá, tinha dono. Um dono com boas condições financeiras, que se frise.
Mas, afinal de contas, que crime cometeram os cachorros de Campo Mourão? Ao que parece, a sociedade - ou pelo menos parte dela - se choca ao ver bandos de cachorros andando pelas ruas da cidade em períodos do cio. Como se isso não fosse natural. A execução dos animais abandonados se torna ainda mais preocupante quando constatamos que ela pode abrir um precedente. Primeiro, exterminam os cachorros que andam soltos pela cidade. Quem garante que depois não será a vez de crianças e mendigos que perambulam sem rumo pelas ruas e também chocam a comunidade?
Não vamos dizer aqui que os cachorros também são seres humanos, como fez o ex-ministro Antônio Rogério Magri, até porque isso poderia ofender alguns cachorros. Ninguém duvida, porém, que cachorro também é filho de Deus. Aliás, por falar Nele, quando o mandamento bíblico diz ‘‘não matarás’’, não está dizendo apenas em não matar outro homem, mas a não matar nada. Em Campo Mourão, entretanto, querem matar o melhor amigo do homem.
Campo Mourão não merece isso. Os pobres cachorros (só os pobres e sem dono é que ganharão a morte) muito menos. A sociedade não pode aceitar calada tamanha covardia e tanta falta de sensibilidade. É melhor ser conhecida como ‘‘cidade que deu certo’’, título dado pelo cientista político Bolívar Lamounier, do que como ‘‘cidade que extermina animais inocentes’’. Além do mais, é bom lembrar que os cachorros foram criados bem antes de Campo Mourão.
- SID SAUER é jornalista em Campo Mourão.

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