Salvo um acidente de percurso - como aqueles que acontecem na Fórmula 1, quando a gasolina acaba na última volta - o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, está garantido no segundo turno das eleições presidenciais. Se não levar de roldão os adversários e garantir a vitória no primeiro tempo. As pesquisas mostram que Lula continua subindo nas intenções de voto, enquanto o adversário mais próximo, o tucano José Serra, perde pontos neste quesito. Aliás, Serra cresce nos índices de rejeição. A disputa se dá exatamente pela incerteza se haverá ou não segundo turno e, havendo, quem disputaria com Lula. A emoção está pelo segundo lugar.
Independente do resultado final, a eleição à Presidência da República já deixou marcas indeléveis ao País. A começar pela postura do presidente Fernando Henrique Cardoso. Mesmo com a candidatura oficial não decolando, FHC em nenhum momento se expôs à mídia para pedir votos de forma deliberada. Portou-se como um magistrado. Respondeu críticas a sua administração, mas a máquina política do governo não saiu às ruas para atropelar os adversários.
Claro que ninguém é ingênuo em imaginar que as benfeitorias e benesses de véspera de eleição não aconteceram, mas a figura do chefe de Estado foi preservada. Outra lição é que a tigrada vai aprendendo cada vez mais discernir o possível do imaginável. O exercício democrático ensina a cada cidadão que o voto é importante e fundamental à vida de todos nós, mas seu uso não pode ser feito aleatoriamente ou em troca de promessas mirabolantes. A questão é que todos os candidatos, sem exceção, prometem muito mais do que podem cumprir; daí que o eleitor é obrigado exercitar a imaginação e buscar alguém com qualidades que ultrapassam as promessas típicas destes dias, ou seja, é induzido pelo bom-senso.
E o que dita o bom-senso? Em primeiro lugar diz que a sociedade pode não saber como, mas certamente sabe onde quer chegar. O avanço da informática, aliada ao milagre da comunicação em massa, fez com que cada brasileiro no mais distante rincão deste país tivesse acesso à informação; daí, ele é capaz de discernir entre o fato e a ficção. O controle remoto da televisão pode levá-lo a viajar o mundo sem deixar a sala de sua casa, mesmo que more em Barreirinha, à beira do Rio Amazonas; em Não-me-Toque, no Rio Grande Sul, ou na periferia de qualquer cidade grande, enfrentando a violência, o desemprego, a falta de transporte coletivo ou literalmente a fome. Se o voto não é possível pela opção desejada, a escolha se dá pela exclusão.
O recado claro dos eleitores é que o Brasil necessita de uma profunda mudança em sua estrutura social. As disparidades econômicas, a má distribuição de renda, a corrupção desenfreada, a impunidade, são apenas alguns dos fatores que tem contribuído para levar o País a um verdadeiro abismo. Mais do que um projeto político, econômico ou social, o próximo presidente da República, seja quem for, terá pela frente um desafio ético.
Em cinco séculos de história, os governantes foram capazes gerar - mas não de gerir - um passivo social sem precedentes, cujos resultados estão estampados em manchetes de jornais traduzidas em violência, criminalidade, desemprego, medo e insegurança. Sem dúvida que temos de assegurar a estabilidade econômica conquistada no governo FHC, mas não é possível que a população seja apenas um dado estatístico influenciando as tomadas de decisões.
O sintoma de que alguma coisa precisa ser modificada com urgência dá-se a partir do momento que, nas áreas mais pobres, o Estado tem seu papel suprido pelo crime organizado. Ou alguém duvida que Fernandinho Beira-Mar ou Marcinho-Vip não seriam eleitos por suas comunidades para uma cadeira na Câmara dos Deputados ou Assembléia Legislativa? O perigo é exatamente quando atingimos este ponto de não-retorno, onde o processo de desagregação social começa a ser perigosamente ultrapassado.
Mas e a saída, onde está a saída? Está no voto consciente de cada eleitor brasileiro.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

mockup