O serralheiro Carlos Miguel da Silva, 33 anos, tem um histórico tão conturbado em sua relação com o telefone celular que é capaz de dar aulas sobre como lidar com o aparelho. Em 1993, ele ganhava o equivalente a R$ 300 por mês entregando panfletos para a firma do irmão. Com o dinheiro, sustentava a mulher e uma filha.
Mesmo com tantas restrições orçamentárias, Carlos não titubeou ao pagar R$ 850 num celular, preço condizente com o status de acessório de luxo de que o aparelho desfrutava na época. ''Paguei tudo em seis vezes. Foi um aperto, é verdade. Quase tive que vender uma moto pra pagar o celular. Mas minha mãe me ajudou a honrar as parcelas'', diz o serralheiro.
O drama veio nos meses seguintes. Sem saber direito como lidar com o aparelho, Carlos usava o celular como telefone fixo. Ligava a toda hora para os clientes que atuam fora da cidade sem dor na consciência. ''Eu precisava mesmo do celular, para as pessoas me acharem. Mas faltou responsabilidade. Pra completar, os amigos achavam legal, o celular ainda era uma novidade, e pediam pra usar'', diz ele.
Resultado: num tempo em que o pré-pago ainda engatinhava, Carlos recebia contas de mais de R$ 100. E ele ainda demorou para se livrar do aparelho. ''Em 1996, praticamente dei o celular para um amigo de Matinhos. Nesta época, estava com mais de R$ 400 de contas atrasadas'', conta.
Desde então, a vida de Carlos mudou muito. Se divorciou e sua filha morreu num acidente de trânsito no ano passado. Carlos começou a trabalhar como serralheiro, se casou de novo há cinco anos e está agora com uma filhinha de 45 dias. As contas da casa agora respiram com mais folga, já que a renda chega aos R$ 1 mil por mês, contabilizando-se também o salário da esposa.
Carlos só voltou a ter um celular no ano passado. Garante que aprendeu a lição. ''Agora, só com pré-pago. E é preciso usar com responsabilidade, nada de ficar batendo papo, gastando horrores. Essa é a dica que dou para todo mundo que precisa de celular e não tem uma grande renda'', avisa o serralheiro.

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