Quase todos contra a Voz - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de dezembro de 1997
J. Roberto Whitaker Penteado 
Quando a Rádio Eldorado de São Paulo deflagrou sua campanha no sentido de que o programa A Voz do Brasil deixasse de ser obrigatório, fui dos primeiros a felicitar a emissora. Mais: em conversa com seu diretor, ofereci-me para distribuir os formulários de abaixo-assinado que haviam criado (e que, segundo informações, já passou - de muito - do milhão de assinaturas que, tecnicamente, caracterizariam uma Ação Popular). Mas também não deixei de alertá-lo de que seria uma dura batalha. Pouco tempo depois, ouvi de um político nordestino (Onde? Na Voz do Brasil, claro!): Jamais acabarão com a Voz do Brasil.
Infelizmente, acho que o tempo está mostrando que quem tem razão é o nobre deputado. Uma pena, pois muitas vezes, em mais de três décadas de jornalismo, escrevi contra o absurdo que representa a manutenção deste programa esdrúxulo no horário nobre das transmissões radiofônicas, em geral quando as pessoas estão aprisionadas pelos congestionamentos em seus automóveis e poderiam estar ouvindo informação, entretenimento e comerciais, mas - em vez disso - desligam seus receptores.
O que acho pior, contudo, é que nenhum dos presidentes democráticos, desde Sarney, passando por Collor, Itamar e, agora, FHC - este perseguido e exilado pela ditadura militar - tenha tomado a iniciativa de extinguir A Voz. Acho, inclusive, que um chefe do executivo que não pense em acabar com este programa bobo (ou, pior: que talvez pense e não consiga) também não será capaz de fazer outras reformas - mais difíceis - e que são indispensáveis para o Brasil se tornar um país viável, como privatizar estatais perdulárias ou modernizar portos e rodovias.
Se faltam razões ao presidente, eis aqui pelo menos 6 delas, para FHC acabar imediatamente com A Voz do Brasil, mesmo sem precisar esperar pelo abaixo-asssinado da Eldorado:
1. A Voz do Brasil é inútil. Ninguém ouve, se o rádio fica ligado e a maioria das pessoas desliga quando ouve o prefixo musical. O programa foi criado pelo DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda - do Estado Novo de Vargas, segundo os (até competentes) modelos nazifascistas da época, quando o rádio era a única forma de comunicação de massa à distância. Na década da Internet, A Voz é anacrônica.
2. A Voz do Brasil é antidemocrática. Nenhum governo democrático de país desenvolvido obriga seus cidadãos a ver ou ouvir alguma coisa em rede. Quando necessário, qualquer governo tem acesso à mídia - em situações de emergência, em particular - ou a qualquer momento que o deseje, pois até do ponto de vista legal, os canais de TV e rádio são concessões do Estado.
3. A Voz do Brasil é antiprofissional. Como programa é chato, antiquado, desinteressante e continuará sendo, pois não tem qualquer compromisso de conquistar audiência ou agradar a patrocinadores.
4. A Voz do Brasil é antieconômica. Não equilibraria as contas do governo, é certo, mas seria uma prova de boa fé de FHC e de seus ministros, de que realmente desejam economizar o dinheiro dos contribuintes, acabar com A Voz, com a Agência Nacional e com todo o cabide de empregos e instrumento de suborno indireto que elas representam.
5. A Voz do Brasil é antipatriótica. Estrangeiros - sobretudo profissionais de comunicação de países do primeiro mundo - em visita a nosso país, ou mesmo lendo ou ouvindo falar, em seus países, ficam escandalizados ao saber que existe, aqui, uma coisa, como A Voz - e engrossam o coro dos que denunciam que o Brasil não é um país sério.
6. Enfim, acabar com A Voz do Brasil é prova de inteligência, de alto espírito democrático, agudo sentido econômico, de modernidade, profissionalismo, maturidade política, patriotismo esclarecido, fairplay econômico, faz bem à saúde, não engorda, embeleza os dentes, fixa e amacia o penteado e não ataca o coração.
Parece que só o governo não sabe disso.


