QUARTO PODER Em briga de vizinhos, condomínio mete a colher
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sábado, 31 de março de 2007
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
As relações entre vizinhos nem sempre são de cordialidade e fino trato. Para alguns moradores de edifícios em Londrina, o clima amistoso azeda de vez se barulho, criança ou animais de estimação forem incluídos na roda. Por outro lado, há aqueles que selam a paz com diálogo e muita paciência. Afinal, há uma receita ou conduta a ser seguida?
Além de prestar contas ao Governo, ao Estado e ao Município, fato é que os condôminos têm, sim, que se adequar às regras e convenções da comunidade na qual vivem. Todos estão sujeitos a este 4º Poder, regido por disciplina, horários e regulamentos. Tudo pela paz.
O salto alto da vizinha do andar de cima fez a professora de inglês Gabriela (nome fictício), 32 anos, moradora da região central de Londrina, agilizar a troca de apartamento. ''A bonitona punha o salto alto e ficava passeando'', conta, ''sentia as tamancadas na minha cabeça''.
Depois de muito reclamar, a professora e o marido, cansados com o desgaste nas relações, transferiram residência. ''Se antes morava no sexto andar, hoje mudei para quase o último. Tivemos de mudar de prédio, já havíamos ligado, interfonado, conversado, era ela ou eu'', rememora a professora.
Episódios não faltam para o relato da psicóloga Fernanda Maria Giglio Rossi, que reside em um edifício também na região central. ''Tempos atrás, um morador que abusava do som não ouvia a campainha, o interfone, as ligações... Um dos vizinhos, que tentava contato para o morador diminuir o volume, sem sucesso, não teve dúvidas: foi ao relógio de luz, desligou a energia e voltou a dormir''.
Outro exemplo de Fernanda refere-se a animais. ''Recentemente, uma moradora nova passeava com sua pit bull pela parte interna do prédio, sem focinheira. Após uma reunião, ela se comprometeu a colocar a focinheira em sua cachorra e a assumir toda e qualquer responsabilidade em caso de danos''.
No mesmo prédio, a empresária Jane (nome fictício) teve um gato como o ''vilão'' de seu cotidiano. ''O corredor, que dá acesso ao elevador, fedia. Fomos então ao Conselho e relatamos o ocorrido. Descobriram que era o gato criado por uma das vizinhas de meu andar. Como o objetivo não era arrumar confusão, após a advertência, a proprietária do bicho comprometeu-se a cuidar da higiene, tanto do animal quanto da área comum. Resultado: ela lava e desinfeta o corredor diariamente. Ainda bem''.
Morador do térreo em outro prédio próximo, o empresário da noite Mauro Antônio Garcia adota a política da boa vizinhança. Tanto é verdade que, após ser acordado algumas vezes pelo barulho de uma bateria, apostou no tom conciliatório. ''No apartamento de cima, havia um músico que tocava bateria o dia inteiro. Conversamos com a síndica e não estamos ouvindo mais'', comemora.
O baterista Wagner Cherry, atualmente sem banda, optou por parar por duas razões. ''Em primeiro lugar, em respeito aos moradores. Depois, porque conseguimos um lugar adequado para os ensaios, onde não incomodo as pessoas e o ambiente me possibilita tocar bateria''.
Com o rock'n'roll no andar de cima cessado, o grito de crianças e demais conversas soam como música para os ouvidos de Mauro Antônio. ''Por ser morador do térreo, tenho alguns privilégios e algumas dificuldades. Minha única dificuldade é a questão do barulho, mas preciso conviver com isso. Não adianta eu chegar para uma criança, que está brincando às 10h, e privá-la disso, é um direito dela'', confessa o empresário, que cumpre jornada de trabalho das 21h às 7h.
Síndica recém-empossada no prédio em que Mauro Antônio e o baterista Wagner residem, a técnica administrativa Rosenete Francisco, que resolveu o episódio da bateria e outros mais, procura sempre ouvir todos os envolvidos. ''Tento ser imparcial, ouvir os dois lados e agir conforme o regulamento. Com os jovens e adultos procuro conversar e expor o problema. Com as crianças, ou falo com os pais, ou, tendo mais intimidade, falo com jeitinho com elas, nunca dando bronca, mas sempre alertando'', pondera.
O professor Rodrigo Garcia, 29 anos, filho de Mauro Antônio e morador de edifício na Avenida JK, vivenciou situação semelhante à do pai. ''Certa vez estava incomodado com o barulho que um vizinho, marceneiro, estava fazendo. As marteladas começavam às 8h, aos domingos. Passei a ligar o som na altura máxima. Ele veio pedir para eu baixar o som. Então disse a ele que eu pararia com o som alto se ele parasse com as marteladas. Deu certo e terminamos amigos''.
Nas relações com os vizinhos, Rodrigo acredita que santo de casa faz milagre. ''No meu prédio, os casais moradores vão namorar lá embaixo e você escuta tudo, os amassos, os beijos... Como começaram a assaltar muitos carros por lá, quando chega um casalzinho eu já desço e digo: olha galera, não é por nada não, mas fora o barulho que vocês estão fazendo, assalto a carros e sequestro acontecem direto por aqui'', revela Rodrigo, que se prontifica, ainda, a abrir o portão.


