Quarentena - André Stumpf
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de novembro de 1998
André Stumpf 
Quando estourou a guerra do Iraque, em fevereiro de 1991, especialistas descobriram que havia um grupo de militares brasileiros trabalhando para o governo de Bagdá. A missão deles era aperfeiçoar os mísseis Scud que espalhavam terror no vizinho estado judeu. A tática utilizada pelo iraquianos era a cada disparo recebido dos aliados mandar um Scud explodir em Israel.
A questão diplomática ficou séria porque o Brasil estava ao lado da coalizão que condenava o regime de Saddam Hussein. Mas, internamente, para os brasileiros o assunto ficou ainda mais delicado: os militares haviam adquirido suas competências técnicas em instalações oficiais do governo. E como, não havia uma lei de quarentena, puderam vender seus serviços ao novo e endinheirado cliente recém surgido.
Os brasileiros saíram do Iraque. Mas a questão da quarentena em atividades técnicas de alta qualificação continuou em aberto. Os economistas tem dado um show de imprevidência nessa área. Desde que o Brasil se tornou uma espécie de laboratório para utilização de teses acadêmicas desenvolvidas em universidades norte-americanas os especialistas pulam de governo para empresas privadas com a facilidade de quem troca de camisa. Os segredos, é claro, vão junto.
Na década de 70, o principal assunto econômico do País era a dívida externa. Muitos especialistas passaram por posições-chave naquelas negociações. Uns conseguiram manter o discreto perfil de funcionário público dedicado às suas tarefas. Outros, repentinamente, tornaram-se proprietários de instituições bancárias, consultores internacionais e representantes de poderosos grupos estrangeiros. Nas mesas de negociação da dívida externa corria parte do dinheiro que garantia o desenvolvimento nacional.
É sempre bom lembrar que esses financiamentos internacionais, saudados em manchetes como salvadores da pátria, são, do outro lado do balcão, apenas um negócio. E para o banqueiro quanto maior o empréstimo, maior a comissão. A inflação, ocasionada pelas sucessivas frustrações naquelas negociações, originou o negócio dos programas de salvação nacional.
Desde o Plano Cruzado foram diversos projetos, várias moedas, grande número de tentativas. Deu certo o Plano Real, que realmente acabou com a elevação de preços, mas produziu esse enorme déficit nacional, que agora procura-se combater com o ajuste fiscal e a aceleração das privatizações.
Os economistas, em cargos de governo, transitaram com muito desembaraço pelos caminhos do poder. As demissões do grupo da privatização anteontem podem ter fornecido o motivo inicial e justo para a criação de limites na atuação do empresário/funcionário, ou do funcionário que pretende, um dia, ser empresário.
A Câmara dos Deputados deverá votar nos próximos dias o projeto que prevê a quarentena para os funcionários do Banco Central. Se a lei for aprovada, os funcionários terão que cumprir um longo prazo desde a sua saída daquela instituição para que possam ser admitidos em empresas privadas que atuem na mesma área.
A confusão entre o público e o privado, ainda que coberta de boas intenções, demonstra um lado ingênuo de operadores de grande experiência. Nenhum dos envolvidos no episódio da escuta telefônica no leilão da Telebrás percebeu que estava, com seu procedimento, contrariando leis e regulamentos. Além do erro primário, as intervenções realizadas no leilão surtiram efeito contrário: ganhou quem devia perder e perdeu quem deveria ganhar. Uma trapalhada.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília


