Quarenta e cinco anos sem Vargas
Léo de Almeida NevesA honestidade, que deveria ser conduta normal de todo homem público, veio a constituir-se na virtude do líder Getúlio Vargas que mais o distingue, na comparação com muitos políticos da atualidade. Ele foi presidente da República por quase 19 anos (1930 a 1945 e 1951 a agosto de 1954). O inventário de Vargas na Comarca de São Borja (RS) revelou que seus bens eram os mesmos do início de sua carreira, herdados de seus pais, acrescidos de um apartamento no Rio de Janeiro, adquirido com financiamento da Caixa Econômica Federal.
A revista ‘‘O Cruzeiro’’, dos Diários Associados, crítica feroz de Vargas, que na década de 50 teve grande prestígio e enorme circulação, publicou reportagem de cinco páginas na edição de 19 de abril de 1958, quase quatro anos após o suicídio, comentando a partilha e proclamando a honradez de Vargas. Ele deixou quatro filhos, todos já falecidos: o médico Lutero (ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro), o engenheiro agrônomo Manoel (ex-vice-prefeito de Porto Alegre), a advogada Alzira (secretária de Vargas na Presidência) e Jandira (dona de casa). Nenhum deles ficou rico, nem seus filhos e netos. Os quatro irmãos de Getúlio (Viriato, Protásio, Espártaco e Benjamim) não fizeram fortuna.
Na vida de Getúlio Vargas não existe estória de caixas de campanha, de arrecadadores de fundos, de depósitos na Suíça, nas Ilhas Cayman ou em outros paraísos fiscais. Nem ele nem seus parentes se locupletaram. A única acusação que faziam a Vargas era ter incentivado a fundação do jornal ‘‘Última Hora’’ (na época o melhor e o mais lido, provocando a ira dos concorrentes), cujas instalações e equipamentos foram financiados pelo Banco do Brasil, com garantias reais, e o empréstimo totalmente pago, parcela a parcela.
A irrefutável probidade de Getúlio Vargas e a consagração de sua vida ao povo e à Pátria, culminando com o derramamento do próprio sangue, compõem uma auréola de estadista e de herói nacional. Quanto maior o tempo decorrido da trágica manhã de 24 de agosto de 1954, mais avulta o reconhecimento ao gigantismo da obra de Getúlio Vargas, agente principal da transformação do Brasil, pobre e predominantemente agrícola anterior a 1930, em uma nação industrial, com reais perspectivas de tornar-se membro do clube dos países ricos, nas primeiras décadas do século 21.
Assumindo destemidamente a responsabilidade de chefiar a vitoriosa revolução cívica e popular de 1930, Vargas chegou ao poder quando a economia do País estava destroçada, sofrendo os efeitos da crise mundial de 1929, desencadeada pelo crash da Bolsa de Valores norte-americana, cujos efeitos perduraram até 1933.
Com pulso firme, Vargas decretou a moratória da dívida externa, restabeleceu o equilíbrio das finanças públicas, enfrentou os interesses das oligarquias econômicas, eliminou as práticas de corrupção vigentes na República Velha, iniciou o processo de organização racional do serviço público e criou o DASP, que introduziu os concursos públicos para admissão de pessoal, o treinamento de servidores e a modernização da máquina administrativa.
Cumprindo o programa da Revolução de 1930, Vargas sepultou as eleições a bico de pena ao implantar a Justiça Eleitoral, estabelecer o escrutínio secreto e universal e assegurar à mulher o direito de voto.
Talvez a mais importante realização de Vargas tenha sido a consolidação da unidade nacional, que sofria riscos por divergências, conflitos e tentativas separacionistas, que vinham desde o Império. Alguns Estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul mantinham polícias militares com poder de fogo capaz de enfrentar o Exército nacional. Vargas enquadrou as polícias estaduais nas suas funções específicas, reaparelhou e fortaleceu o Exército e a Marinha e criou o Ministério da Aeronáutica.
Vargas cedeu bases aéreas para os Estados Unidos no Nordeste e o Brasil participou ao lado dos aliados da 2ª Guerra Mundial, com o envio de uma esquadrilha da Força Aérea Brasileira (FAB) e da Força Expedicionária Brasileira (FEB) à Itália, onde os brasileiros se cobriram de glórias combatendo os alemães. Antes de declarar estado de beligerância, Vargas com habilidade e diplomacia obteve ajuda dos Estados Unidos, através do presidente Franklin Delano Roosevelt, à Cia. Vale do Rio Doce (principal exportador internacional de minério de ferro) e para a construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, marcos da nossa emancipação econômica.
Com a criação da Petrobrás (e a proposta da Eletrobrás), da Fábrica Nacional de Motores, do BNDE, do Banco do Nordeste, da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil (Creai), e o incentivo às atividades produtivas na indústria e na agricultura, Getúlio Vargas colocou o Brasil na trilha do desenvolvimento econômico.
Marcante e meritória foi a sensibilidade de Vargas aos problemas dos humildes, a preocupação em expandir o mercado interno e a coesão social obtida com as leis trabalhistas e sociais, decretando a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a legislação previdenciária, instrumentalizada pelos Institutos de Aposentadoria e Pensões.
Getúlio Vargas governou o País com visão de estadista, integridade pessoal, autoridade no exercício do cargo, competência e criatividade, nacionalismo e patriotismo exacerbados e, principalmente, com soluções brasileiras para problemas brasileiros, sem copiar figurinos estrangeiros ou a eles submeter-se, embora atento aos fatos universais e às suas repercussões internas.
Por mais que tentem, os professadores do neoliberalismo não conseguirão acabar com os feitos e os postulados da era Vargas, que há de continuar para o Brasil cumprir seu destino de potência mundial.
- LÉO DE ALMEIDA NEVES é suplente de senador pelo Paraná e ex-deputado federal, exerceu a diretoria da Creai do Banco do Brasil e a presidência do Banestado

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